sábado, 1 de janeiro de 2011

Gamaliel: quando Deus trabalha com os contrários.

Atos 5.33-42

1.       Quem foi Gamaliel

Gamaliel era um conhecido Rabino fariseu [v. 34] neto de Hilel, o velho, que fundara uma das escolas de pensamento do judaísmo farisaico. A escola de Hilel era mais tolerante que as demais do seu tempo, daí seus ensinos serem mais procurados do que o da casa de Shamai após a destruição do templo em 70 d.C.

A procura pelos ensinos da Casa de Hilel após o ano 70 d.C. tinha uma razão de ser. Os judeus agora espalhados por todo o mundo tinham que fazer concessões junto aos povos onde estavam inseridos, bem como, a escola de Hilel foi a única a sobreviver após o fim do templo. Assim sendo essa escola de pensamento farisaico passou a ser o pensamento oficial do judaísmo no exílio.

Gamaliel recebeu o título de rabban, título superior ao de rabino. De fato, Gamaliel tornou-se uma pessoa tão respeitada, que a Míxena diz a seu respeito: “Quando Rabban Gamaliel, o velho, faleceu, cessou a glória da Tora, e pereceram a pureza e a santidade [lit. “separação”].” — Sotah 9:15.

2.       Gamaliel no Novo Testamento

Em dois momentos que seu nome é citado no novo testamento ele é sinônimo de tolerância, autoridade e livramento para os cristãos. O primeiro caso ocorre em Atos 5.33-42 objeto do nosso estudo e o outro em Atos 22.1-3, quando o apostolo Paulo faz uso do nome Gamaliel [para chamar a atenção dos ouvintes] em defesa de sua integridade física e para proclamar o evangelho de Cristo.

Em ambos os episódios temos Deus trabalhando em oculto instrumentalizando potenciais adversários da doutrina cristã em defesa dessa mesma doutrina. Em Atos 5.33-42, o Rabino se posiciona em favor da justiça e do bom senso o que beneficiou os discípulos de Cristo.

A situação era dramática, visto que:

·         Todo o colégio apostólico estava cativo do Sinédrio – v.33-34.
·         Havia uma disposição de coração por parte das autoridades religiosas em matá-los – v.33.

O argumento de Gamaliel era simples:

“38 E agora digo-vos: Dai de mão a estes homens, e deixai-os, porque, se este conselho ou esta obra é de homens, se desfará, 39 Mas, se é de Deus, não podereis desfazê-la; para que não aconteça serdes também achados combatendo contra Deus.”

Essa argumentação foi construída em meio às dúvidas do Rabino, que naquele momento não entendia em profundidade o que se passava, mas desconfiava da possibilidade de uma nova aliança entre Deus e homens através da evolução do próprio judaísmo: Jesus Cristo.
As evidências para isso é que não faltavam. Vejamos:

·         Outros haviam se passados por Cristo e não obtiveram êxito [v. 36 – Teudas; 37 – Judas, o Galileu].
·         Um dia antes desse encontro no Sinédrio os discípulos de Cristo haviam sido presos [v. 18], porém conseguiram escapar milagrosamente do cárcere.
·         Era do conhecimento do Sinédrio a consistente formação teológica e argumentativa dos discípulos de Cristo [v. 13]. Isso sempre causava espanto, visto serem na maioria pessoas incultas e iletradas [Atos 4.13].
·         Era também do conhecimento do Sinédrio e do próprio Gamaliel membro deste conselho das maravilhas operadas pelos seguidores de Cristo [v.15-16].

De forma que havia elementos fortíssimos para serem simplesmente ignorado por Gamaliel em seu posicionamento diante do conselho.

Gamaliel expos uma lógica que incomodava muito as “autoridades que pensavam em Israel”. Algumas delas literalmente se converteram a nova fé não se contentando apenas em entender o movimento, mas participando do mesmo. Esse é o caso Simeão [Lucas 2.25-29], José de Arimatéia [Lucas 24.50-51], e tantos outros judeus convertidos de ontem e de hoje.
 
3.       A ação de Deus em socorro do seu povo e do evangelho.

A posição assumida por Gamaliel vai muito além de uma prática de tolerância religiosa característica da Casa de Hilel. Ela na verdade oculta a intenção de Deus em preservar seu povo e sua mensagem de forma a torná-la conhecida por todos os homens.

Esse mesmo propósito estava no coração de Cristo quando de sua prisão no Getsêmani. Com Jesus estavam Pedro, Tiago e João [Mateus 26.37], contudo Jesus Cristo pede aos soldados que liberassem seus discípulos de igual sentença [João 18.8-9] e foi atendido.

A sobrevivência do homem Jesus Cristo não era uma prioridade [João 5.14], mas as dos seus discípulos sim e por diversas vezes ocorreu através da ação dos anjos [Atos 5.19; Atos 12. 7-11] ou por meio da intervenção de terceiros como Gamaliel, irmãos de fé e familiares dos apóstolos do Senhor [Atos 9. 23-25; Atos 23. 12-25].

Estamos aqui diante de um princípio: a soberania de Deus. Para Gamaliel estava muito claro: “Mas, se é de Deus, não podereis desfazê-la [...]”. Nada pode prosperar se o objetivo do projeto é apagar Deus da humanidade.

Exterminar um Deus criador, salvador e sustentador da memória das suas criaturas é a tarefa mais antiga de satanás, a que tem consumido mais do seu curto tempo de domínio sobre a terra [o mundo está no maligno – 1Jo 5.19] e a mais frustrante também.

As formas que ele usa para bloquear a graça de Deus sobre os homens são as mais diversas: a morte é uma delas, a mentira outra e a arte de roubar esperança sua ferramenta mais eficaz.
Desde os tempos bíblicos até nossos dias o evangelho nunca deixou de ser alvo de ataques e seus anunciadores perseguidos e até mortos. Na Igreja primitiva tivemos o império romano e césares como Nero, Valeriano [...] que introduziram centenas de irmãos em suas arenas como espetáculo vivo, mas passou e já não é mais.

Hoje os diversos meios de comunicação de massa (periódicos, filmes, etc.) tem posto em prática uma acirrada campanha contra as verdades bíblicas. Toda essa afronta a palavra de Deus tem o mesmo objetivo dos demais movimentos da antiguidade, ou seja, desacreditar a palavra de Deus e lançar os homens no oceano da dúvida e da angustia espiritual, pois querem roubar a nossa fé em Deus e nada tem com igual poder e eficiência para colocar em seu lugar.

Estados tem se levantado para combatê-lo a qualquer preço jogando a igreja na clandestinidade. Contudo, ela continua forte, revolucionária e vitoriosa, visto que o trabalho é de Deus e não pode submetesse aos desejos humanos.

4.       O limite de Gamaliel e a infinitude de Deus.

Gamaliel colocou dúvida se a ação do Sinédrio era certa ou não. Essa era também a sua duvida, por isso foi tão convincente, afinal o que ocorria em Jerusalém e arredores era algo que não podia ser desprezado. Defesa semelhante teve Nicodemos diante do Sinédrio em benefício de Jesus Cristo [João 7.51], contudo não foi levado em conta pelo conselho.

Porque agora o Sinédrio voltou atrás? A resposta é clara: esse negócio era de Deus. A prova disso se dar na seqüência do texto.

40 “E concordaram com ele. E, chamando os apóstolos, e tendo-os açoitado, mandaram que não falassem no nome de Jesus, e os deixaram ir. 41          Retiraram-se, pois, da presença do conselho, regozijando-se de terem sido julgados dignos de padecer afronta pelo nome de Jesus. 42 E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus Cristo.”

 Os discípulos foram açoitados e ameaçados. Tentaram roubar-lhe a esperança que havia em suas vidas de modo à ingessá-los evitando assim a pregação do evangelho. Contudo, satanás falhara. A convivência com Cristo foi intensa e rica o que deixou os discípulos livre das dúvidas iniciais.

O que Gamaliel e o Sinédrio não conseguia entender em sua totalidade, foi perfeitamente compreendida pela plebe [João 7.45-49] sedenta de Deus e mal alimentada por uma elite religiosa vazia e sem respostas para suas necessidades. Só Deus entende o coração do humano, só Deus conhece nossas carências e por isso mesmo pode-nos fartar. Os discípulos naquele momento não podiam ser tocados, afinal existia um mundo para ser evangelizado.

O apostolo Paulo ex-discípulo de Gamaliel marca bem o limite dos ensinos de da casa de Hilel e da infinitude de Cristo quando na carta de Filipenses afirma:

7 “Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. 8 E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo, 9 E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé;”

Paulo poderia ter conseguido projeção social se tivesse continuado com sua convicção farisaica1, mas não teve medo de se atirar nos braços do Pai, Senhor dos senhores, Mestre dos mestres o único que podia e pode nos dar esperança.

E você amigo de perto e da distancia. O que te impede de entregar sua vida a Jesus? Seu status social, amigos, família, orgulho próprio? Paulo considerou tudo isto PERDA por CRISTO. Se essa palavra falou ao seu coração aceite-o hoje mesmo fazendo a seguinte oração:

Senhor eu sei que sou pecador e não sou digno de ser chamado de teu filho, mas segundo a tua misericórdia e graça entra na minha vida e torna-se meu Salvador e Senhor em nome de Cristo Jesus. Amém!

Após esse passo essencial continue lendo as sagradas escrituras e procure hoje mesmo uma igreja evangélica que tenha compromisso com Deus para dar início ao seu crescimento espiritual. Paz de Cristo a todos e feliz 2011!

Nota: 01:

“Outros do círculo de Gamaliel ajudaram a definir o futuro do judaísmo. Por exemplo, Simão, filho de Gamaliel, talvez colega de estudos de Paulo, desempenhou um grande papel na revolta judaica contra Roma. Após a destruição do templo, o neto de Gamaliel, Gamaliel II, restabeleceu a autoridade do Sinédrio, transferindo-o para Jabneh. O neto de Gamaliel II, Judá ha-Nasi, foi o compilador da Míxena, que se tornou a base do pensamento judaico até o dia de hoje.” [Biblioteca Bíblica]




Jerônimo Viana
Professor da EBD - Igreja Batista do Alecrim
Natal, RN, 01 de janeiro de 2011.

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