quinta-feira, 25 de junho de 2015

Arqueólogos nas barbas do "Estado Islâmico"

FONTE: PÚBLICO [JORNAL ONLINE PORTUGUÊS]

ALEXANDRA LUCAS COELHO (Texto e Fotografia, no Norte do Iraque)

Quando o “Estado Islâmico” pisou Palmira, cinco jovens arqueólogos portugueses, um belga, uma italiana e dois curdos estavam a salvar um pouco da Mesopotâmia, numa colina do Curdistão, não muito longe da linha da frente. Em vez de bandeiras negras, cachecóis do Benfica. Retrato de um mundo partido, entre guerras. Da nossa enviada Alexandra Lucas Coelho, no Norte do Iraque

O comandante Ato apoia-se nos sacos de areia e aponta para o horizonte, uma linha ocre debaixo de um céu azul, cortada por uma coluna de fumo: “Ali é o ‘Estado Islâmico’.” A que distância? “Um quilómetro vírgula oito”, responde ele, com precisão de carta militar. “Mas em Agosto estavam aqui.”

Aqui é uma trincheira no Norte do Iraque, um dos pontos da longa linha da frente que divide as tropas curdas dos jihadistas. E por toda a parte há sinais de como no Verão passado os jihadistas aqui chegaram. Nas nossas costas, Hassan al-Sham, a aldeia mais perto, está deserta, abandonada, possivelmente minada, e as ruínas da ponte que eles fizeram explodir continuam à vista, penduradas sobre o rio. Os soldados curdos, conhecidos como peshmergas, tiveram de fazer outra ponte até à trincheira. Trincheira mesmo: guaritas, barracas para a troca de turno, barreiras de metal, madeira e sacos de areia empilhados, com espaços para enfiar as armas, fazer mira.

Estamos entre Erbil, a capital curda, e Mossul, a maior cidade do Iraque dominada pelos jihadistas. Não exactamente a meio porque Mossul está mais perto. Caminhando em linha recta, chegaríamos aos escombros de Nimrud, a antiga cidade assíria que o “Estado Islâmico” fez explodir como a ponte, só que com mais dinamite, e direito a trailer. Assim acontecera em Mossul, em Hatra, teme-se agora em Palmira.

Porque à ficção do “Califado”, mais que imperialista, apocalíptica, não basta arrasar para a frente, “conquistar Roma, ser dono do mundo”, como proclama o “califa” Abu Bakr al-Baghdadi. É preciso arrasar para trás, destruir a história que vai do século XXI ao primeiro islão e a história anterior a ele até não haver história, apagar rostos, figuras, símbolos, templos, e portanto o começo da escrita, da troca de bens, das cidades.

Esse começo deu-se aqui na Mesopotâmia, a terra entre os rios Tigre e Eufrates que hoje corresponde à Síria e ao Iraque, sobre a qual conhecemos apenas fragmentos, o pouco que ficou em pé ou foi escavado. Teria sido preciso escavar muito mais, e guerras de várias espécies travaram a arqueologia nesta região, sobretudo na segunda metade do século XX. Mas à actual autonomia curda, sempre em braço-de-ferro com Bagdad, interessa trazer a história ao de cima, afirmar um mapa.

E uma das coisas que se aprendem numa colina da antiga Mesopotâmia é como a arqueologia avança através de pequenas sondagens: cortes na paisagem por onde o arqueólogo desce, milénio a milénio, até avistar um mundo.

André Tomé e Zana Abdulkarim (de chapéu), na primeira manhã na escavação, com os trabalhadores contratados
Eis o que estão a fazer durante as próximas semanas cinco portugueses, um belga, uma italiana e dois curdos numa colina junto a Sulaymanyiah, segunda cidade do Curdistão. Quando a repórter os deixou para ir um par de dias à linha da frente, preparavam a logística que implica uma escavação nesta parte do mundo. Começam a conhecê-la: na temporada anterior, em 2013, antes da proclamação do “Estado Islâmico”, acharam uma tabuinha de argila com cinco mil anos que representará o início da economia, comprovando trocas entre Norte e Sul da Mesopotâmia. Não é um pedaço da Epopeia de Gilgamesh, o que representaria o início da literatura, mas isso também não seria impossível, como veremos ao longo desta estadia entre refugiados, soldados, checkpoints, caveiras, cacos de cerâmica, panelões de massa com atum, mais dias sem água do que com água, nunca esquecendo que o Benfica foi fundado em 1904, porque haverá um cachecol pendurado na despensa e outro no frigorífico. Vieram na bagagem deste regresso ao Iraque, agora nas barbas do “Estado Islâmico”.

 A bagagem de um arqueólogo é sempre um problema. Há quase cem anos, quando acompanhava o seu marido Max Mallowan nas escavações, Agatha Christie tinha de se sentar em cima das malas para fecharem. Faz sentido lembrar Mr. e Mrs. Mallowan no aeroporto de Lisboa, à espera de voar para Sulaymanyiah via Istambul. Max Mallowan é uma das referências na Mesopotâmia, com toda a distância política e científica que o separa de arqueólogos como Ricardo Cabral, 31 anos, um dos três directores do projecto que a repórter vai acompanhar. Ele leu as memórias de Mallowan, teremos direito a detalhes na viagem, em que também seguem os arqueólogos Ana Margarida Vaz, 28 anos, e João Barreira, 32. A bagagem de cabine dos três amontoa-se na sala de embarque, mistura de pedreiros com escuteiros e tecnologia de ponta. Um arqueólogo contemporâneo vai assim de trolha a “piloto” de drone, e a repórter ainda não viu nada.

“Ainda bem que o André já levou a estação total”, diz Ricardo, contemplando o monte. Uma estação total é um pesado instrumento de medição que não pode viajar no porão, por ser delicado, nem na cabine, por não caber. André Tomé, 28 anos, o outro director português do projecto, levou-a no cockpit há uns dias. Foi adiantar os preparativos em Sulaymanyiah, incluindo achar uma casa para a equipa, porque a da escavação de 2013 fica num lugar isolado do vale e, com o advento do “Estado Islâmico”, os responsáveis curdos acharam que não era segura.

Horas depois, o voo de Istambul, lotado, sobrevoa o Norte do Iraque, passando por cima de Mossul, até descer para Sulaymaniyah, uma profusão de linhas bem iluminadas. O Curdistão cresceu desde a invasão americana de 2003, para os lados e para o alto, muita construção alimentada pelos negócios locais, petróleo, cimento. Dois autocarros modernos escoam os passageiros para um terminal moderno, onde os seis guichets de passaporte estão abertos, apesar de ser meio da noite. As bandeiras são do Curdistão, e basta um carimbo de entrada, nada de visto iraquiano. Só quem fica mais de 15 dias tem de passar depois por outra burocracia, também especificamente curda. É como entrar num país dentro de outro, sensação que os próximos dias só vão confirmar, em todos os sentidos. A autonomia curda é um facto, e um dos bocados em que o Iraque está partido. Mas enquanto se mantiverem os obstáculos internacionais a que o Curdistão seja um país — a começar pela Turquia, onde os curdos rondam um quarto da população —, vai manter-se a hostilidade entre este bocado do Iraque e os restantes, xiitas por um lado, sunitas por outro, tensões fratricidas que explodiram durante a ocupação americana (2003-2011), favorecendo a ascensão do “Estado Islâmico”.

Mossul, a “capital” iraquiana dos jihadistas, fica apenas a 80 quilómetros de Erbil, a capital curda. Os militantes do “Califado” só recuaram do cerco a Erbil quando Obama ordenou ataques aéreos, em Agosto. Mas ainda conseguiram detonar um carro-bomba junto ao Consulado americano, e isso aconteceu agora, a meio de Abril.

O carimbo nos nossos passaportes diz 7 de Maio, começo da madrugada. Em seguida, passageiros e malas empilham-se até ao tecto num mini-autocarro do tempo de Saddam, porque não se pode ir a pé até ao checkpoint das chegadas. O Curdistão passa o tempo nesta oscilação de quem gostava de ser o Dubai mas continua a ser o Iraque.

André Tomé, 28 anos, o outro director português do projecto

André está à nossa espera, dois carros para caber toda a gente e lá vamos pelo meio da noite até à aldeia onde fica a casa que, finalmente, depois de várias questões, foi possível alugar. Uma questão “sensível” para a vizinhança era a equipa ser mista, homens e mulheres. Além de trolhas e cientistas, os arqueólogos têm de ser diplomatas, e o facto é que a casa, mais que grande, são duas, portanto os homens vão dormir em cima, as mulheres em baixo. Mas como não há nada lá dentro, André só teve tempo de ir buscar uns colchões à casa antiga e limpar o piso de baixo, onde esta noite toda a gente vai dormir. De resto, o chuveiro há-de ser instalado, o autoclismo também, a sanita é de cócoras e o lavatório às flores, para compensar.

Amanhã, ou seja, daqui a pouco, vai ser preciso montar uma casa para dez onde se durma, cozinhe, coma e trabalhe. Além de comprar pás, picaretas, picos, cordas, estacas, carrinhos de mão, uma roçadeira para cortar as ervas da colina, loiça em segunda mão, mesas e cadeiras de plástico, caixas para guardar milhares de cacos de cerâmica, sacos para guardar centenas de ossos humanos, etiquetas, canetas, pincéis, arrobas de arroz e de comida em lata, garrafões de água porque a da torneira, quando há, não se bebe, e ainda trazer o fogão e o frigorífico de 2013 seja em que estado for, porque isto é uma escavação que todos os dias faz contas ao dinheiro.



Então, melhor aproveitar a montagem da casa, enquanto não se dão descobertas, e dar um salto à linha da frente já na manhã deste dia, que continua a ser 7 de Maio.

O objectivo é chegar o mais perto possível de Mossul, e isso quer dizer ir primeiro a Erbil. Duas estradas levam lá, uma passando junto a Kirkuk (cidade que era controlada por Bagdad e os curdos acabaram por tomar no meio da disputa com o “Estado Islâmico”); outra pela montanha (ao longo da fronteira com o Irão). Faremos a da Kirkuk à ida e a da montanha na volta. O tradutor contratado é amigo de amigos, chamemos-lhe Adan, quem guia é o irmão.

Colinas verdes, fábricas de cimento, boas estradas, uma das vias ainda do tempo de Saddam, a outra já da autonomia curda. Adan fala do medo dos carros-bomba e dos refugiados que não param de chegar, centenas de milhares vindos das zonas que os jihadistas vão tomando no Iraque e na Síria. Rebanhos de ovelhas convivem com fábricas, por exemplo, de gás. Desde casa já passámos dois checkpoints com peshmergas que nos mandam seguir. Um carro de matrícula curda e ocupantes que falam curdo tem mais hipótese de não ser parado. Adan explica que “peshmerga” quer dizer “pronto a morrer”. Os curdos estão sempre a honrar os seus peshmergas, tudo o que possa ser remotamente curdo, aliás.

Kirkuk é uma zona rica em petróleo, passamos o mais antigo campo do Iraque, e torna-se claro que há combates a menos de 70 quilómetros quando se multiplicam os checkpoints e nos revistam.

Depois, curvando para Norte, nenhum sobressalto até Erbil, que parece tranquila, com a sua cidadela ao alto. As alas do bazar onde se troca dinheiro estão desertas mas cheias de pacotões de notas, porque um dólar vale quase 1200 dinares. Mais movimento na ala da fruta, nêsperas, pêssegos, morangos, menos na dos alfaiates. E ninguém no artesanato. “O movimento caiu para metade desde há um ano”, diz Ali, o jovem vendedor. Vir comprar os tradicionais sapatos feitos à mão, por exemplo, não é uma prioridade agora. Ainda assim, Ali nunca pensou partir. “Temos de nos orgulhar do nosso chão. Quem nos quer tirar o sangue é que tem de ter medo. Se precisarem de mim, estou pronto a combater.”



Uma aldeia curda, junto à fronteira com o Irão

Meio em obras, e cheia de bandeirinhas curdas, a cidadela tem aquele ar das ruínas demasiado refeitas, modesta herança comparada com outras no Iraque, e sobretudo na Síria. Mas a vista lá de cima abarca todo o horizonte além de Erbil, cidade planíssima, encostada ao deserto.

É quinta-feira, o que aqui significa pré-fim-de-semana desde o fim da manhã, altura em que andámos pelo Ministério dos Peshmergas de edifício em edifício, tentando uma autorização para ir à linha da frente. Incontáveis telefonemas depois, ao longo de todo o dia, um amigo de um amigo de Adan dá-lhe o contacto de um comandante que aceita receber-nos no dia seguinte.

De manhã cedo deixamos Erbil em direcção a Mossul. Uma paisagem de refinarias, chamas e chaminés, depois o trânsito desaparece. Adan, que faz de co-piloto, descobre um caminho mais curto do que aquele que o comandante lhe indicou e nisto chegamos a um grande checkpoint onde os peshmergas nos param, um pouco atónitos. Adan menciona o nome do comandante e tenta ligar-lhe, ele não atende. Os peshmergas dizem que dali para a frente é preciso guiar rápido porque o “Estado Islâmico” está a 10 quilómetros, do outro lado do rio, e há risco de snippers, só têm passado carros militares e aldeões que moram logo adiante. O tempo que esperamos confirma isso, um ou outro carro de agricultores e vários carros militares. Quando o comandante finalmente atende, diz que aquela não era a boa estrada, mas já que estamos aqui o melhor é ir ter com outro comandante, noutro ponto. Arrancamos com um nome e sem saber bem como chegar. Perdemo-nos, voltamos atrás, passamos rios, até de novo a estrada ficar deserta e aparecer o checkpoint junto ao acampamento militar que procurávamos. O tal comandante não está mas o seu vice vai receber-nos. Ontem era um problema ser quase fim-de-semana, hoje não.

“Têm sorte porque é sexta-feira, temos algum tempo”, diz o comandante Ato Zibary, cumprimentando-nos no seu gabinete, com fotografia em destaque do presidente curdo Massoud Barzani, que ainda domingo esteve com Obama em Washington. É um acampamento organizado, blindados alinhados cá fora, peshmergas marciais na continência, gabinetes bem mobilados.

O comandante Ato apoia-se nos sacos de areia e aponta para o horizonte: “Ali é o ‘Estado Islâmico’.” A que distância? “Um quilómetro vírgula oito”
Zibary, um peshmerga “político”, foi nomeado pela presidência, e a seu lado está o general Dedawan. O batalhão deles controla uma faixa de 35 quilómetros da linha da frente diante de Mossul. Como explica o comandante que uma cidade tão grande tenha caído em quatro dias, mil e tal jihadistas contra 30 mil soldados iraquianos, vai fazer agora um ano? “Erros de Bagdad”, responde Zibary. “A divisão sectária entre árabes xiitas [no governo em Bagdad] e sunitas levou a isto. Agora arrependem-se porque vêem que não conseguem lutar sozinhos. Essa divisão não tem que ver com os curdos, nós somos sunitas mas temos yazidis, cristãos, todos a viverem juntos.” E se as tropas iraquianas vierem com milícias xiitas, avisa o comandante, os curdos não participarão na retomada de Mossul. “Porque temos a certeza de que as milícias matarão muitos civis [sunitas] em Mossul.” Mas até à luz verde para a retomada, os peshmergas aguentarão em terra. “A força aérea americana ajuda-nos muito, alemães, canadianos, italianos, franceses... Demoram 12, 15 minutos a chegar do Kuwait.”

Retomar Mossul é “uma decisão política”, diz Zibary. “Depende de quando o exército iraquiano estiver pronto, porque nós estamos prontos há muito. Mais: se não fôssemos nós, o ‘Estado Islâmico’ já teria conquistado Bagdad.”

E nisto vão todas as tensões desta amálgama militar: curdos sunitas, árabes sunitas desmotivados, xiitas apoiados pelo Irão e força aérea de Obama e aliados. Um caldeirão de ex-inimigos que agora têm um fim em comum, derrubar o “Estado Islâmico”, quando há dois anos, em alguns casos, estavam a erguê-lo, ao armarem rebeldes sírios jihadistas contra Assad. Há dois anos, nada era pior do que Assad, e hoje nada é pior do que o “Estado Islâmico”, esse Frankenstein gerado pela guerra civil dos dois lados de uma fronteira que já não existe, a que dividia Síria e Iraque. Se na Síria a guerra era contra Assad, e no Iraque entre sunitas e xiitas, hoje há um “estado” maior do que a Grã-Bretanha a meio dos dois países, com uma capital em cada lado (na Síria, Raqqa, no Iraque, Mossul), e à volta está tudo partido. No balanço das intervenções e contra-intervenções estrangeiras desde 2003, dos Estados Unidos à Rússia, da Arábia Saudita ao Irão, é difícil imaginar pior.

Zibary, este comandante curdo de 50 anos que combateu Saddam, vê o “Estado Islâmico” como “uma continuação da Al-Qaeda, fortalecida pelos erros de Bagdad” desde 2003: “A América derrubou Saddam, deu o poder aos xiitas e assim beneficiou o Irão. O resultado da invasão americana foi dar o Iraque ao Irão. Todos estes erros levaram ao ‘Estado Islâmico’.”

O general Dedawan acrescenta: “O ‘Estado Islâmico’ junta a experiência de guerra no Afeganistão, na Tchetchénia, do regime de Saddam, da guerra civil síria, dos soldados ocidentais. São o mais forte inimigo da humanidade.” E olhando bem de frente a repórter: “Se eles derrotarem os peshmergas, você não se sentirá segura em Portugal. Estamos a lutar por si também.”

 O comandante aceita levar-nos à trincheira. Em minutos, três blindados enchem-se de homens, incluindo um atirador e vamos por uma estrada deserta, entre destroços, passando Hassam al-sham, hoje uma aldeia-fantasma, e a ponte que os jihadistas rebentaram.

Cerca de 800 peshmergas revezam-se nesta região, substituídos de dez em dez dias. Há muito fumo no ar, do mato que os soldados queimam para ser mais fácil ver avanços do inimigo. A coluna militar pára junto a um pequeno monte. Os peshmergas saltam dos carros, armas em riste, e marcham pelos calhaus até à barricada. Quem está de turno cumprimenta o comandante e os forasteiros. Na tenda montada junto aos sacos de areia dorme quem fez o turno da noite. O horizonte parece quieto, uma planície árida com areia no ar, muito ao fundo recorte de edifícios. O perigo não são só os tiros, os soldados falam dos veículos que os jihadistas enchem com explosivos e lançam contra as trincheiras. “Há um mês foram duas escavadoras e três Humvees”, conta o comandante. “Foi a meio da noite, em geral atacam à noite, quando chove ou faz nevoeiro, porque aí a força aérea não pode actuar tanto.” O Humvee é um jipe militar americano, um dos muitos equipamentos que o “Estado Islâmico” arrebatou. “Eles têm armas muito sofisticadas do exército sírio, iraquiano, americano, russo...”


Um dos soldados do comandante Ato Zibary junto da ponte detonada pelo “Estado Islâmico”
De novo a bordo do blindado, o comandante não aceita não como resposta. Teremos de ficar para o almoço no acampamento. Boa comida curda, arroz, frango, sopa, vegetais, azeitonas, frutas várias. Quase um feriado.

 Como ainda vamos acabar a tarde mais a norte, em Lalish, o santuário dos yazidis, minoria religiosa que o “Estado Islâmico” massacrou em Agosto de 2014 (ver reportagem no PÚBLICO de sexta-feira passada), é noite escura quando chegamos à região de Erbil. Adan e o irmão têm amigos peshmergas junto à cidade que nos recebem para a ceia. São curdos que vieram do Irão, alguns há muito, alguns para combater agora, têm 50 homens na linha da frente, mas a novidade é que têm 25 mulheres. E são elas, com as suas fardas femininas, que depois da ceia hão-de trazer um colchão para a repórter dormir, guardada por bandeiras e retratos de heróis curdos.

Falam curdo e farsi, e lutam pela autonomia onde estiverem. Por exemplo, Shilan, 28 anos, perdeu dois irmãos no combate com as tropas iranianas e envolveu-se na causa curda aos 15. “Fui treinada por homens, somos a primeira geração de mulheres peshmergas. Primeiro houve homens que se espantaram, mas agora a presença de uma atrai outras.”

Kani, 27 anos, já combateu contra o exército iraniano e agora está aqui. É casada, o marido está na frente. Elas revezam-se para ir lá, em pequenas temporadas. “Não temos medo, estamos habituadas.” Sahar, 25 anos, casou mas agora fica por aí, em nome da luta. “Neste momento não queremos ter filhos.” Uma frase rara num contexto muçulmano. Shilan tem dois filhos, mas só foi uma vez à frente. E a mais bonita, Aiwan, 27 anos, nem pensa em casar. “Sou peshmerga, quero lutar.” A primeira luta é a independência, mas o “Estado Islâmico” tornou-se uma urgência. “Lutamos contra eles porque somos humanas, é dever de todos.”

Mulheres peshmergas mostram as suas fotografias de combate na linha da frente
Kamal, peshmerga de 47 anos que há muito mora na Suécia e agora voltou para treinar os jovens, fala na força do “Estado Islâmico”. Não é só “terem a experiência de guerrilha com armas muito modernas”. É o ânimo: “O que os distingue é que querem morrer, são suicidas, não batem em retirada. Ficam até à última bala e são impiedosos.”

Ele sabe do que fala, veterano da guerrilha curda antes de todo este conforto de tropas peshmergas com gabinetes e ministérios. “Vivíamos nas montanhas. Só às vezes conseguíamos um pouco de comida. Cheguei a estar 45 dias sem tirar os sapatos.”

Para não falar nos anos 80, quando milhares de curdos foram exterminados pelas tropas de Saddam num genocídio com armas químicas, e milhares de combatentes presos e torturados.

Rapidamente nos habituamos a que os dias aqui valham por dez, começando pelo facto de às 4h30 ser dia. Entre as despedidas aos peshmergas e a viagem de volta, Adan e o irmão contam como foi crescerem curdos no tempo de Saddam. “Os soldados vinham e destruíam as nossas casas. Aos seis anos vendíamos coisas na rua para ajudar em casa.” Hoje, Adan é arqueólogo, o irmão, professor de liceu. Longo caminho. No começo dos anos 90, quando às armas químicas se sucederam outros ataques de Saddam, fugiram a pé de Sulaymaniyah até ao Irão, 100 quilómetros à chuva. “A ONU entregava coisas aos iranianos e eles despachavam-nas para o mercado negro. Mas houve aquele dia em que a Unicef decidiu ir ao campo entregar em mão e de repente éramos milhares de crianças às cores, vestidas de rosa, vermelho, azul…”

Mesmo sem Saddam, Adan continua a não ter boas palavras para Bagdad. Há meses que não recebe a sua bolsa de doutoramento, congelada pelo governo xiita iraquiano. Milhares de funcionários também não recebem os salários. O boom do Curdistão está suspenso no ar, como as centenas de prédios que passamos nos arredores de Erbil, bairros inteiros que ficaram a meio porque entretanto caiu o petróleo, veio a crise e o “Estado Islâmico”.

Ao longo da soberba estrada de montanha, Adan e o irmão têm ainda outra memória, a de quando resolveram trepar por estas rochas e descobriram que elas ainda estavam minadas, desde a guerra com o Irão nos anos 1980. Tiveram de voltar saltando de pedrinha em pedrinha, sem pisar o chão.

Entretanto, rapazes penduram na estrada faixas em homenagem a combatentes curdos que acabam de ser mortos pelo “Estado Islâmico”.



Onze pares de botas no pátio. A casa pulula de arqueólogos e uma visita. Veio o fogão, Ana prepara o almoço. Veio o frigorífico, mas a porta voou no caminho, foram à procura dela, não acharam, o frigorífico foi para arranjar. Já há mesas e cadeiras na cozinha, despensa cheia, loiça, tachos. A sala da frente começa a parecer uma oficina de trabalho, mesas montadas, computadores, um estendal de equipamento. Na sala de dentro, esteiras e espumas para toda a gente, sala oriental.

Tiago Costa, 27 anos, o perito nos cacos de cerâmica que veio à frente com André, faz um ponto da situação aos que chegaram depois. Ana já escavou na Síria, Ricardo na Síria e no Iraque, mas João está a estrear-se nesta parte do mundo, e Mustafa Ahmed, o entusiástico estudante que hoje cá está em visita, também quer ser arqueólogo. “O mais importante é pensar isto como algo único, que vale pela própria experiência”, diz Tiago. “Idealmente encontraremos um compartimento cheio de cerâmica, mas não podemos esperar nada.”

A repórter é apresentada a Awaz Shadan, 26 anos, e Zana Abdulkarim, 30, os dois arqueólogos curdos nomeados pelas autoridades locais para viverem com a equipa; a Giulia Gallio, 25, a italiana mais inglesa das redondezas, que não por acaso mora em York, e será a antropóloga responsável pelos ossos; e Steve Renette, 33, o flamengo de barba ruiva que é um dos três directores deste projecto, ao lado de Ricardo e André.

Tiago Costa lava a cerâmica: “O mais importante é pensar isto como algo único, que vale pela própria experiência”, afirma
Como Steve está ligado à Universidade de Pensilvânia e Ricardo e André à Universidade de Coimbra, institucionalmente isto é uma parceria entre as duas universidades e as duas partes vão-se revezando no financiamento. Para 2015, foi Steve que arranjou o orçamento. Mas os três estão sempre a pensar como viabilizar a escavação no futuro. Esta colina foi pessoalmente escolhida por eles e ninguém aqui recebe salário. João veio apesar de estar planear a sua tese de mestrado, porque queria mesmo trabalhar na região, ajudar os amigos. Os cinco portugueses são grandes compinchas em Coimbra, colegas de turma, de apartamento, de escavações e férias, há anos. Ao fim de dez dias com eles, uma pessoa até pondera voltar a Coimbra.

Onze à mesa. Numa comuna deste género só deve haver duas hipóteses, ou o humor ganha ou a falta de humor mata, sobretudo ao fim de um mês a trabalhar 12 horas com hérnias e 50 graus ao sol. Aqui, tanto quanto a repórter verá, até a discreta Giulia tem de tirar os óculos para limpar as lágrimas de rir. Ricardo é o Seinfeld do Mondego, e Zana, o curdo, um viking da stand up, mesmo sentado. Tudo isto sem um grau de álcool, nem na grande noite que espera o Benfica, porque o álcool é uma daquelas “questões sensíveis” na vizinhança.

Awaz estreia-se no chá com canela, que se tornará um must da casa. Copos e gente pelo chão da sala, o capitão André abre o saquinho do tesouro, aquele que diz: “KS 13 / 1017 / SF-27”. Traduzindo, KS é Kani Shaie, o nome da colina; 13, o ano do achado; 1017, a camada; SF, Small Findings (Pequenos Achados), e 27 o número do achado.

As tabuinha de argila na mão de André Tomé

Os arqueólogos terão de lidar com os ossos de todos os defuntos enterrados por cima das camadas milenares

Giulia Gallio escovando o seu primeiro crânio no Iraque
Eis a tabuinha de argila com mais de cinco mil anos que prova como André, Ricardo e Steve escolheram bem a colina: há talvez 5200 anos, um homem rolou o cilindro em relevo que era a sua assinatura, imprimindo num bocado de argila fresca o desenho nítido de veados a serem transportados de barco. À direita, fez uma perfuração, indicando a quantidade, provavelmente dez, algo que ainda não era praticado aqui. Estamos assim perante o começo da burocracia, da contabilidade, da economia: uma factura. E uma factura que aponta para uma relação com a Uruk de Gilgamesh, então a grande cidade da Baixa Mesopotâmia. Talvez a nossa colina tenha sido uma colónia de Uruk e venha a revelar como as primeiras cidades se expandiram para Norte, e porquê. “Nossa colina” porque isto já se tornou uma observação participante.

Steve teme pelo chá na vizinhança do tesouro e a tabuinha volta ao saco de plástico. Tiago espalha cacos como quem estuda um puzzle, coadjuvado por Ricardo e João. Mas nada bate a imagem de Giulia no chão, a esfregar uma caveira com uma escova de dentes, incluindo os próprios dentes da caveira. “Podemos ver pela forma da mandíbula que é uma mulher, e devia ser jovem porque os dentes estão bons.”

Este projecto não anda à procura de caveiras, gostaria mesmo de as evitar. O problema é que tendo de escavar de cima para baixo vai ter de lidar com os ossos de todos os defuntos enterrados por cima das camadas milenares, que são as que importam neste caso. E como isto não é um filme do Indiana Jones, nem sequer a época de Max Mallowan, tudo o que um arqueólogo vá achando deve ser cuidadosamente escavado, identificado e guardado, mesmo que não lhe interesse nada e pese nas hérnias e no orçamento.

As conversas cruzam-se. Ouvindo que a repórter foi a Lalish, o santuário dos yazidis, Ricardo, que ama os yazidis, explica-nos o problema que eles têm com a alface. Há uma propensão para amar os yazidis nesta equipa. “Lalish é o meu lugar favorito”, anuncia Steve. Entretanto, noutra zona da sala, alguém pergunta se há corda, alguém responde que há corda para dez temporadas, o frigorífico regressa com porta, e o capitão André recapitula os problemas: “Temos de ir tratar do prolongamento dos vistos, temos de ir arrancar as ervas…” Se não chover, porque ameaça.

Entretanto, como depois de amanhã temos de ir ao Museu de Sulaymaniyah, e hoje o poente promete, os três directores não querem acabar o dia sem um pulo à colina. Ricardo enfrentará a roçadeira que comprou no bazar. Já inventou até um escudo para as pernas com os cartões de uma embalagem e, como não tem máscara, vai de óculos de sol.

De Tasluja, a aldeia onde moramos, à colina da escavação, tudo depende do checkpoint a meio, varia entre 15 e 30 minutos. Há um ponto em que o carro sai da estrada e entra por um caminho com estufas de um lado e do outro. Aí, estamos em pleno vale de Bazian, atravessado desde há milénios, vastidão mansa de colinas verdes, pedra branca e campos de trigo, hoje ensombrada por três cimenteiras que lentamente comem as colinas, com um rugido permanente. A região não só foi pouco estudada, como agora estão a rebentá-la com dinamite.

Ao poente já tudo passa de verde a dourado em silêncio. O sol que apareceu no Irão desaparece na Síria, lá adiante, onde os deuses de Palmira hão-de ver chegar bandeiras negras. Estar aqui é escavar contra essa destruição, quase um trabalho de Sísifo, recomeçando de cada vez. Por exemplo, desde 2013, o mato tomou a colina, mas é para isso que serve uma roçadeira.

“Kani Shaie!”, exulta André, saindo do carro como se voltasse a casa. Trepamos. Papoilas, trigo selvagem, ninhos de vespas. No cimo há uma pequena árvore, a vista é assombrosa e só de pisar aparece cerâmica. “É uma colina tão pequena que tendem a não lhe dar importância, e agora está toda a gente espantada com o que achámos”, diz Steve. Uma das poucas escavações neste momento no Iraque, uma das únicas portuguesas no mundo.

“Em 2013, fizemos um corte para chegar aos níveis mais antigos de forma rápida”, explica André. “E agora queremos expandir cada degrau.” Ou seja, cada milénio. Com o seu colherim — uma espécie de colher de pedreiro mas em forma de losango e muito mais forte —, André cava entre o terceiro e o quarto milénio a.e.c. (antes da era comum), enquanto Ricardo já anda com a roçadeira a zunir, impávido perante as ervas e pedras que vão saltando.

Em meia hora, André e Steve acharam mais cacos do que conseguem trazer nas mãos. “A cerâmica é o nosso melhor amigo [para situar épocas], mas também pode ser o amigo mais aborrecido”, diz André. Escurece, cheira intensamente a erva, o operário Ricardo descansa, antes de logo começar a debater onde vão cortar a terra, abrir mais sondagens. É um diálogo que só arqueólogos podem ter: “Repara, aqui estou no terceiro milénio”, diz um, em pé na encosta. Medem o terreno às passadas, decidem o número de trabalhadores. “Podemos começar com 12”, propõe Steve, prudente: 12 salários a sair do orçamento.

E ao serão, no pátio, entre os relatos de uns, bolseiros; outros, professores só metade do ano; outros, desempregados depois de estágios de 600 euros; Ricardo compara arqueologia e astronomia. “Quando olhamos uma estrela, também estamos a ver o passado. São duas máquinas do tempo.”

Kani Shaie é a colina que escolheram, e escavar, o que mais gostam. Talvez não haja outra forma de estar num lugar como o Iraque.

Na manhã seguinte, toda a casa ruma ao Museu de Suleymaniyah, onde primeiro seremos recebidos por Kamal Rahim, o director do Serviço de Antiguidades a que os arqueólogos estrangeiros reportam. André, Steve e Ricardo têm vindo a abrir caminho nesta relação desde 2013, e o que entretanto acharam ajudou. Mas de cada vez há burocracia e diplomacia para resolver.

Ainda bem que o gabinete é grande, porque, à boa maneira oriental, vai acumulando gente à espera de ser recebida. Pouco depois de nós, chegam três arqueólogos japoneses, que trazem presentinhos, e depois um arqueólogo espanhol, que tem pelo menos uma coisa em comum com todos os portugueses em Sulaymaniyah: é um fã de Cláudio Torres. Mulheres de preto servem copinhos de chá, os sofás são de napa, há fotografias do presidente na parede, lenços de papel na mesa, ao lado de um calendário da Asia Oil.

O director desdobra-se. Enquanto André e equipa vão tratar dos vistos, incluindo tirar sangue, ele atende a repórter entre os japoneses e o espanhol. “Nesta região de Suleymaniyah, só houve duas escavações no século XX, uma entre 1947 e 1955, de ingleses, outra entre 1957 e 1959, de dinamarqueses”, resume. “Depois, o regime de Saddam não autorizou mais. Foi por isso que em 2003 abrimos portas e janelas a estrangeiros. Temos vestígios desde a Idade da Pedra ao islão, um espectro muito longo, e tentamos que cada projecto escave um período diferente.” André, Steve e Ricardo estão focados no terceiro e quarto milénio a.e.c. “É a primeira equipa a trabalhar esta era, muito importante para nós, das primeiras cidades, dos primeiros impérios, a relação entre Norte e Sul, e eles já encontraram muitas coisas.” Os resultados são publicados por ambas as partes, mas todos os materiais ficam no museu, que neste momento é o segundo mais importante do Iraque (depois do de Bagdad), com destaque para um estupendo fragmento inédito da Epopeia de Gilgamesh recentemente identificado. O edifício, onde há baldes a conter infiltrações, espera ser modernizado em colaboração com a UNESCO.

O outro interlocutor dos arqueólogos estrangeiros é o próprio director do museu, Hashim Hawa. A cena do gabinete repete-se quando a repórter lá chega. Cá estão os japoneses, distribuindo presentes, cá está o simpático espanhol. Hashim também é simpático, toda a gente é simpática, ainda vão chegar consultores, funcionários, a mulher do director, e acabou de sair o embaixador da Letónia, o que gera um debate local sobre se a Letónia é a Lituânia.

“Queremos focar o museu nas peças achadas aqui”, diz Hashim, depois de atender toda a gente sem perder o sorriso. “Antes, este museu era para mostrar a Mesopotâmia, era como o Museu de Bagdad. Agora, a vinda de arqueólogos estrangeiros é muito boa porque as peças ficam todas aqui e podemos fazer convergir o que sabemos.” Lido politicamente, isto quer dizer que o Curdistão quer ter um museu curdo, com bom material local, afirmando-se, portanto, num mapa antiquíssimo, além de criar laços internacionais, que simultaneamente vão formando novas gerações de arqueólogos curdos.

Ricardo Cabral a roçar o mato, na colina de Kani Shaie

O “Estado Islâmico”, crê este director, não pode ameaçar isso. “Suleymaniyah está segura. Eles conseguiram tomar Mossul porque contaram com a ajuda das pessoas na região [árabes], que odeiam o governo [xiita] de Bagdad. Aqui ninguém os deixaria ficar, destruir a nossa herança.”

Suleymaniyah é uma cidade suficientemente aberta para um velho livreiro se declarar ateu e vender Nietzsche, Zizek, Dante, Kafka, na sua barraquinha no centro da cidade. No jardim ao lado, amigos e famílias estão deitados-sentados na relva, uns com violas, outros com cães. Um fim de tarde sem sombra de guerra, à primeira vista. Mas, se antes de partir olharmos para o canto, veremos um pai, uma mãe e um filho a chorarem. Choram porque se despedem, contaram à repórter. Os pais partem de volta à Síria, o filho continuará aqui porque fugiu a matar na Síria. E a mãe não pára de chorar, dizendo: “Eu não vi o meu filho durante dois anos.” Cada um deles é uma história que não cabe aqui.

A abertura de Suleymaniyah foi decisiva para que os americanos, depois de décadas de presença académica em Beirute e no Cairo, decidissem instalar a Universidade Americana no Iraque, monumental campus inaugurado há meia dúzia de anos. Um estudante vindo de Bagdad, como Mustafa, o entusiasta da arqueologia, árabe de origem xiita, pensa que “em Erbil não deixariam entrar árabes”. O seu professor, Tobin Hartnell, 39 anos, arqueólogo com duas décadas de experiência no Médio Oriente, dirá mais genericamente que “Suleymaniyah é a parte mais tolerante do Curdistão”. O facto é que, de todos os pontos do Iraque, foi aqui que os americanos acharam mais seguro investir. Estão com 1400 estudantes que variam entre pagar 4 mil dólares por ano e ter bolsa que cobre tudo. “Os curdos de Suleymaniyah são a maioria, mas temos gente de outras províncias, curdos, árabes xiitas, sunitas, yazidis”, explica Tobin, sentado na ampla cafetaria da universidade. “É provavelmente a única universidade no Iraque assim.”

Tobin tinha as malas feitas para se mudar para cá quando o “Estado Islâmico” cercou Erbil, em Agosto passado. Mas não mudou de ideias. É casado com uma arqueóloga iraniana, têm uma filha que se desdobra em inglês, farsi e curdo. Esta parte do mundo foi a que ele escolheu.

“Para quem quer estudar a Mesopotâmia, estar no Curdistão é uma prioridade”, diz Tobin. “Cada descoberta que fazemos é um grande salto em frente.” Enquanto as gigantes Ur ou Uruk, no Sul do Iraque, são escavadas há um século “e ainda sabemos tão pouco”, aqui numa escavação pequena é possível avançar muito. “O ‘tell’ deles é espantoso”, elogia, referindo-se à colina de Kani Shaie, escolhida por André, Steve e Ricardo. “Tell” é o nome que se dá a uma colina artificial, resultado de várias camadas de ocupação humana. “O que eles estão a escavar é o nascimento de uma civilização.”

Tobin acredita que as montanhas curdas vão revelar toda uma outra Mesopotâmia, diferente do que sabemos das civilizações urbanas. “O que estamos a tentar ver aqui são impérios e não cidades. Todas as grandes dinastias vieram das montanhas ou lutaram para controlar as montanhas, de onde o perigo vem. Mas ainda não sabemos que civilização começou nestas montanhas. Acho que foi um tipo de civilização não centralizada, colaborativa, de partilha de poder.” Em suma: “O federalismo pode ter começado aqui.”

E se o “Estado Islâmico” é “uma ameaça à diversidade”, mais uma razão para ficar. “A destruição deles só torna o nosso trabalho mais importante. Não há futuro estável do Curdistão sem arqueologia. As pessoas precisam de provas para falar de quem são.”

A casa levanta-se às 4h30. Às 5h, há todo um bazar prestes a ser carregado, e quem não trouxe cantil, chapéu, bota, calça grossa, protector, repelente, vai sofrer. Quando os dois carros estiverem cheios, a roçadeira só caberá entre as cabeças de Ricardo e Tiago. Inshallah sem travagem brusca.

Os trabalhadores contratados são pontuais, o que de repente faz 20 pessoas em cima da colina. Ricardo, que ontem desencantou uma máscara no bazar, põe gasolina na roçadeira, uns enfiam as pás na terra, outros arrancam ervas à mão, todos fazem tudo, erva, terra, pás, baldes. Talvez Portugal não afunde se o futuro da investigação for isto, é a alegria no trabalho.

Centenas de pazadas depois, entra em cena o colherim para definir o contorno das pedras, o terreno. É a fase do contacto zoológico: dois escorpiões, uma aranha, um lagarto, assim onde a repórter está.

Tobin Hartnell, mulher e filha; Steve Renette, André Tomé, Tiago Costa (atrás), João Barreira, Ricardo Cabral (atrás), Ana Margarida Vaz, Giulia Gallio e Mustafa Ahmed. Na página da esquer
Às 7h30 parece que já passaram horas. O sol queima, talvez nasça uma hérnia. Quando uma pessoa escava de colherim, não há boa posição para as costas, só menos más. Descanso de dez minutos e voltamos a meter o nariz na sepultura. Porque do que se trata aqui, nesta camada de cima, é de várias sepulturas islâmicas, está claro já, pela disposição das pedras. Então, primeiro as pedras à volta do esqueleto são escovadas a pincel e colherim, e depois vai-se escavando com cuidado a terra no meio, tão delicadamente que a certa altura já nem podemos usar o colherim, tem de ser uma colher de sopa e depois uma pequena espátula de madeira. O arqueólogo oscila assim entre a força bruta e o bisturi, fora o que ainda vai lavar, estudar, fotografar, escrever.

Aparece um fémur. A seguir, um sapo, vivíssimo, e a seguir um escorpião. Depois da morte não se sabe, mas definitivamente há vida sobre a morte. “Alguns arqueólogos recusam-se a escavar sepulturas por razões éticas”, diz Steve. “Imagina pensares que vais ficar ali para sempre, chega alguém, desenterra-te, põe-te dentro de um saco de plástico.” Exactamente o que vai acontecer a este esqueleto, quando acabarmos de o escavar, o que demorará dolorosas horas. “A cremação é uma grande coisa!” Mais abaixo, Tiago continua às pazadas, está a escavar há horas. Um arqueólogo sem bolsa e sem emprego pode sempre recorrer à enxada, é um perito (alô FCT).

Ao mesmo tempo, também percebe de fotografia em 3D e quadricópteros. Ricardo empunha uns comandos tipo PlayStation e o famoso drone sobe como um insecto. Tem quatro hélices nos cantos e uma câmara na barriga, a missão dele é fotografar a grande altura, mas para quem não sabe parece um zangão extraterrestre. Os rapagões curdos largam as pás, tudo de queixo no ar.

Às 9h30 faz-se a refeição que corresponde a um primeiro almoço, já que começámos às 5h. Piquenique de pão com triângulos de queijo, pepino, tomate, fruta, ovos cozidos. Dá meia hora de pausa, à sombra da árvore.

As sepulturas multiplicam-se. No dia seguinte, Giulia e João passam horas semideitados a escavar ossos: pá, vassoura, colherim, pincel, espátula e infinita delicadeza. Há ossos que se transformam em pó mal são tocados. Giulia é a especialista, mas João trabalha como se não houvesse amanhã, nada parece pesar-lhe. E Ana está como Tiago ontem, uma heroína de pá, picareta, vassoura, balde, num dos outros níveis que é preciso tratar, além de cozinhar todos os dias para dez, porque no ano passado foi André, e é consensual que ela cozinha melhor. De resto, para lavar loiça e limpar a casa, há uma escala.

Steve e André juntam-se noutra sepultura, crânio já exposto. O bom estado dos dentes impressiona. “No século IX, as pessoas comiam um quilo de açúcar por ano”, diz Giulia. “E era açúcar natural, de fruta e cereais. Nós comemos 65 quilos por ano.”

Às 13h, já são oito horas de trabalho, os trabalhadores contratados terminam o dia, mas parte da equipa vai só a casa almoçar e volta, porque há ossos expostos, é preciso acabar de os escavar, fotografar e guardar, para não ficarem abandonados uma noite. Quem não vai lava centenas de cacos de cerâmica entretanto achados, vai comprar mantimentos, resolver a crónica falta de água. Jantar pelas 19h, hora a que Ricardo Seinfeld pode, por exemplo, dedicar o seu episódio de hoje à cimenteira mais vizinha da colina, um gigante mundial que talvez esteja disposto a patrocinar a escavação. Investigou tanto sobre eles que descobriu uma secção de responsabilidade social de que eles próprios nem se devem lembrar. Até Giulia, que de tanto sol e trabalho ficou doente, não come mas ri.

Com todo o seu amor aos yazidis, Ricardo topou com uma família de 11 quando entrou nas estufas vizinhas, a perguntar se a equipa podia guardar ali os carrinhos de mão, e demais material pesado, da noite para o dia. Um deles falava inglês, contou ele, então numa das manhãs a repórter desce a colina e vai lá.

Uma casa precária, feita entre as estufas, moscas, calor. As crianças vêm descalças à porta, Saado estende a mão. Tem 25 anos, é ele quem fala inglês porque estudou Engenharia em Mossul. Agora está neste buraco, e é porque não morreu, ao contrário de milhares de yazidis da sua idade, apanhados pela conquista do “Estado Islâmico” na região do Sinjar (Noroeste de Mossul).

Saado tinha saído da aldeia onde toda a família vivia e foi ao Sinjar em visita. Calhou lá estar na tarde em que os jihadistas chegaram, “com muitos carros, Toyotas, armas e bandeiras negras”, conta, sentado numa das espumas que à noite fazem de cama, enquanto um irmão mais novo traz um copo com água, depois outro com chá.

Saado e a sua família, yazidis refugiados junto à escavação
“Nós não tínhamos armas. Eles primeiro disseram: ‘Têm de levantar uma bandeira branca’, e nós levantámos. Depois separaram homens, mulheres, crianças e disseram a todos que se tinham de converter ao islão. Depois disseram um a um e começaram a matar os homens que diziam que não.” Falavam em curdo, explica, porque sabiam que eles falavam curdo, mas Saado também ouviu árabe e inglês. “Diziam que nos iam libertar. Libertar do quê?” Viu cortarem cabeças e crianças pequenas serem mortas, guardarem as mais velhas como combatentes. Tudo isto demorou horas, era muita gente. Às oito da noite já estava escuro e Saado decidiu fugir. “Pensei: se ficar aqui vão matar-me com uma faca. Se correr terei duas hipóteses, morrer com um tiro ou escapar com vida.” Qualquer uma dessas lhe pareceu melhor. Teve sorte, caminhou até à Síria, e por mais sete horas. Mas um dos seus primos foi levado pelos jihadistas para Tal Afar, a ocidente de Mossul. “Disse-lhes que se convertia para se salvar. Não consegue fugir. Há duas semanas falámos com ele e só chorava. Disse que os jihadistas fazem o que querem e as pessoas só ouvem. Obrigam os homens solteiros a lutar. Casou com uma rapariga yazidi para a salvar.” De ser feita escrava.

Saado e família acabaram refugiados aqui, como tantos. Arranjaram trabalho nas estufas de pepino, Saado, a mulher e dois irmãos. Pagam-lhes 80 dólares por mês, para todos. O que ele gostava de fazer? “Ir para fora do Iraque”, responde, sorrindo da pergunta. E não vale a pena perguntar-lhe do que precisa. “De tudo e nada. Veja como vivemos. Sou engenheiro e trabalho nesta estufa. Isto é um país islâmico e yazidis e cristãos não podem viver aqui.” Mesmo no Curdistão? “Mesmo os curdos às vezes perguntam porque não nos convertemos.” O governo local defendeu-os de pressões, mas Saado acha que aqui não terão paz. Quer ir para qualquer lugar da Europa ou dos Estados Unidos.

Mais ossos. Vizinhos que sobem à colina porque querem ter a certeza de que não são sepulturas recentes. Idas a Erbil para ter um papel que falta, em vão, e com dois carros avariados. De vez em quando falta luz além de água. Tempestades de areia enquanto se guardam falanges, falangetas. Sem falar da maldição de Tutankhamon, os arqueólogos que morreram depois de violarem a sepultura. Porque as doenças sobrevivem milénios nos ossos, explica Giulia.

A propósito de vida depois da morte, “quem gostaria de ter 70 virgens à espera?”, pergunta João. “Eu não.” Uma canseira ensiná-las, sobretudo quando se é arqueólogo, e já tem de se saber de geografia, topografia, paleobotânica, antropologia social, sistemas de datação carbono 14, sistemas de informação, digitalização, legislação local, políticas públicas, marketing, cartografia, fotografia, aeromodelismo, roçadeiras, cozinha em massa, e tudo isto sobrevivendo ao “Estado Islâmico”, e à maldição de Tutankhamon.

Na sexta-feira em que a repórter vai deixar o Iraque, porque é sexta e os trabalhadores estão de folga, Tobin vem com a mulher e a filha e Mustafa em visita. Percorremos todo o vale, passando pelas cimenteiras. Subimos a outras colinas, que André, Steve e Ricardo subiram antes de escolherem Kani Shaie. A cerâmica pelo vale é tanta que a calcamos ao andar nos campos. Mesopotâmia lavrada, espalhada à superfície. O Iraque de 2015 também não está muito inteiro.

A cerâmica pelo vale é tanta que a calcamos ao andar nos campos. Mesopotâmia lavrada, espalhada à superfície
De volta a Lisboa, fazemos um skype para André mostrar mais um caco, que não é mais um caco. É o bordo de uma jarra com três homens, um escorpião, mil anos posterior à tabuinha e, como ela, vinda certamente do Sul. “É uma descoberta muito importante porque, ao contrário do que se pensava, indica que não deixou de haver contactos entre Norte e Sul”, explica André.

Para eles, é só o princípio, quem sabe não fazem uma casa lá. A TV curda até transmitiu a vitória do Benfica. Ah, Saado, o yazidi, mais irmãos, já estão a escavar na colina. Ainda acabam em Portugal.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

8 milhões de múmias de cachorros são encontradas em templo de Anúbis

Fonte: Revista Galileu

Arqueólogos descobriram cerca de oito milhões de múmias de cães em uma área próxima a um templo dedicado a Anubis, em Saqqara - desde filhotes com apenas horas de idade até cães adultos estavam no local. A descoberta, descrita na revista Antiquity, foi atribuída a um período mais recente do antigo Egito (de 664 até 322 a.C.).


O templo é localizado na capital antiga do Egito: Mênfis. Acredita-se que os locais cruzariam cães e produziriam filhotes para ser sacrificados como sinal de gratidão aos deuses.

As catacumbas caninas foram documentadas pelos idos de 1897, mas foi só em 2011 que pesquisadores começaram a escavar os longos túneis da instalação. E quando falamos longos, não estamos mentindo - são 173 metros do corredor central com corredores que o cruzam chegandoa medir 140 metros. Elas foram construídas com pedras que datam de 50 milhões de anos atrás - tanto que o teto continha um fóssil de um vertebrado marinho (parente dos peixe-bois) de 48 milhões de anos.

Apesar de muitas múmias terem sido comprometidas pelo tempo ou por ladrões de tumbas, muitos animais foram enterrados de formas elaboradas, indicando que muito esforço era gasto nestes rituais.

Apesar de 92% dos bichos enterrados lá serem cachorros, também foram encontrados raposas, falcões e gatos. Ainda não se sabe o motivo de eles estarem lá. 

Via IFLS

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Congresso de Missões - COMIS, RN

O Congresso de Missões - COMIS, RN, deste ano foi realizado em Natal durante os dias 19 e 20/06/15, na Igreja Batista do Alecrim. 
Esse Congresso se realiza anualmente e reúnem todos os missionários Batistas ligados a Convenção Norte-rio-grandense. A frente deste trabalho encontramos os Pastores Luiz Carlos França -COMIS e o Pr. Eude Cabral - Secretário Executivo da Convenção Batista Norte-rio-grandense.

Como convidados especiais para este ano vieram as missionárias Analzira Nascimento [Missões Mundiais] que falou sobre sua experiencia na Multiplicação de Discípulos e a missionária Maria Helena Leão [Missões Nacionais] que expôs o tema o Chamado Missionário e Plantação de Igrejas

 Além das palestras das missionárias tivemos três oficinas: Mobilizando Missões na sua Igreja com Adriano Borges [Juntas de Missões Mundiais], Evangelizando Através do futebol com o irmão Fábio Melo [Seminarista do STBNB] e um Encontro com as Mensageiras do Rei [missionária Maria Helena Leão]. 

"Esse congresso foi um banquete espiritual", testemunhou um dos irmãos que acabara de participar de uma das palestras, outro afirmou "a igreja sai fortalecida diante de testemunhos missionários tão impactantes". Esse foi o espírito que dominou todo o congresso. 

Junto a eles e elas nos encantamos com o testemunho de cada missionários vindo dos mais diferentes recantos do Rio Grande do Norte. Seria injustiça listar os nomes de todos eles, sob pena de deixar alguém de fora, mas quem os procurou e buscou informações de como anda o trabalho no interior e litoral do nosso Estado certamente saiu confiante na obra missionária que cresce a cada dia.

Na sexta a noite tivemos a palestra da missionária Maria Helena [Missões Nacionais] e no sábado a ouvimos o testemunho da missionária Alzira Nascimento [Missões Mundiais]. Essa mulher de Deus serviu em Angola por 17 anos em meio a uma guerra civil. Suas fragilidades ante a dureza da guerra, sua vivência com Deus nos momentos mais angustiante e por fim, sua volta ao Brasil nos marcou profundamente. Ao concluir a mensagem vários jovens foram a frente a fim de atender o chamado do Senhor para missões.





O que dizer dos irmãos Fábio Melo e seu evangelismo via esportes ou Adriano Borges e sua promoção missionária? Todos foram ótimos naquilo que se propuseram e o nome de Deus foi glorificado.

No domingo após o Congresso a Igreja Batista do Alecrim recebeu a irmã Maria Helena que fez um desafio em prol de missões. A esse apelo a igreja aquiesceu em quase sua totalidade.



Agradecemos a Deus pelo Congresso de Missões - 2015 e pelas pessoas que direta ou indiretamente trabalharam arduamente [cantina da igreja, recepção, membros da Convenção Batista, pastores, palestrantes e outros]. Que o grande Deus recompense a todos.

Primeira vez no Oriente Médio

Médicos Sem Fronteira - A mão de Deus em socorro aos necessitados

Enfermeira brasileira fala sobre experiência trabalhando à distância com profissionais sírios
19/06/2015

Síria

Sempre tive vontade de vir para o Oriente Médio. E cá estou, há dois meses, vivenciando muitas coisas novas e diferentes com Médicos Sem Fronteiras (MSF). Desde que desembarquei aqui, muitas coisas ficaram diferentes para mim: a cultura, o estilo de vida, a visão de mundo e, claro, os problemas. Aqui estou em um projeto na Síria, na Província de Aleppo, trabalhando à distância, por conta de questões de segurança, como enfermeira supervisora. Porém, me sinto muito perto de tudo.

Sim, exato: este projeto está acontecendo de uma forma que chamamos “controle remoto”, ou seja, trabalho com uma equipe de sírios que está dentro do país administrando todas as atividades do projeto; trabalhamos juntos promovendo treinamentos, recrutamento, reuniões em equipe, tudo com o objetivo de melhorar a qualidade da assistência oferecida à população. Para tal, fazemos uso de todos os meios de comunicação possíveis (Skype, celular, whatsApp, mensagens de texto – quando um não funciona, tentamos o outro), sabendo que a rede de comunicação não é das melhores. Essa situação desperta um sentimento de angústia, às vezes, porque gostaria de estar trabalhando lado a lado com essa equipe fantástica. Sim, pois como poderiam não ser fantásticas essas pessoas que, de uma forma corajosa, trabalham diariamente sob pressão para oferecer assistência à sua própria população em meio a conflitos diários, sem a possibilidade de saber o que será do amanhã. E, quando converso com eles (via Skype), estão sempre com um sorriso no rosto, procurando dar o melhor de si com aquilo que podem.

Neste projeto, MSF tem um hospital que oferece consultas diárias e internação quando necessário. A instalação está preparada para receber emergências, estabilizar o paciente e referenciar para outras unidades, para receberem tratamentos mais especializados, como ortopedia, cirurgias, e para a realização de exames mais específicos. O time está sempre pronto para receber qualquer casualidade da linha de frente de batalha, e responder imediatamente.

Também estamos envolvidos com um programa de doação de medicamentos e suprimentos médicos, oferecendo suporte a mais de 20 unidades de saúde na cidade de Aleppo. E é ali que se concentra quase 80% do meu trabalho: administrar todo o nosso estoque e preparar as doações, procurando manter a qualidade dos nossos serviços e garantir o suprimento de todas essas unidades que estão no meio do fogo cruzado.

Posso dizer que após este tempo aqui, parece não haver lugar seguro na Síria. Nossa farmácia vive sob tensão, com ataques que ocorrem nas proximidades, fazendo com que a equipe tenha de se abrigar em um local seguro e esperar por um tempo até que a situação se acalme. Essas situações me deixam com o coração aflito, porque estou sempre em contato com eles quando algo acontece, e, sem poder ajudar muito, ofereço o suporte que está dentro das minhas limitações atuais. Confesso que nesses momentos, de uma forma estranha, eu gostaria de estar lá com eles. Sempre que isso acontece, fico refletindo sobre a forma e as condições às quais esses profissionais estão diariamente expostos. E, por mais que sempre me digam “está tudo tranquilo, Joyce”, no fundo, sei que há um sofrimento que cala dentro de cada um deles.

Mas é esse time de profissionais que, antes de tudo, são seres humanos fantásticos, que dão sentido aos meus dias e fazem com que eu encontre a real razão de estar aqui, deixando qualquer dúvida de lado, se é que algum dia ela existiu. Por aqui sigo, com a certeza de que aqui quero estar, e que ainda tem muita coisa para acontecer.

O hospital citado por Joyce no texto está, atualmente, fechado.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Terremoto do Nepal deslocou o monte Everest, diz estudo chinês

O terremoto de magnitude 7,8 que abalou o Nepal no dia 25 de abril deslocou o monte Everest, a maior montanha do planeta, em três centímetros para o sudoeste, afirma a Administração Nacional de Topografia, Cartografia e Informação Geológica, citada pela imprensa de Pequim.

Segundo um estudo do organismo, o Everest (8.848 metros) aumentou três centímetros nos últimos 10 aos e se deslocou quase 40 centímetros para o nordeste.

O Everest "se desloca constantemente para o nordeste e o terremoto provocou um pequeno avanço na direção oposta", afirmou Xu Xiwei, vice-diretor do Instituto de Geologia da Administração Chinesa para Terremotos, citado pelo jornal "China Daily".

"A magnitude do movimento é normal", completou.

A maior montanha do planeta, situada na fronteira entre o Nepal e a região autônoma chinesa do Tibete, constitui um bom ponto de observação das placas tectônicas Euroasiática e Indiana, que se chocam nesta região altamente sísmica, segundo Xu.

O terremoto registrado no Nepal em 12 de maio, de 7,5 graus, não provocou um deslocamento perceptível do Everest, segundo o estudo realizado com instrumentos de medição por satélite.

Os terremotos deixaram pelo menos 8.700 mortos no Nepal, incluindo 18 alpinistas que morreram em um deslizamento no Everest.

Fonte: CPAD

sábado, 13 de junho de 2015

Mais de 34 mil igrejas rompem com a Presbiteriana dos EUA depois de aprovar casamento gay

`Nenhuma igreja tem o direito de mudar a Palavra de Deus. Ao votar para redefinir o casamento, a PCUSA perde automaticamente a graça salvadora de Cristo´, disse o Reverendo Anthony Evans.

Como forma de estimular a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUSA) a se arrepender de sua apostasia, a Iniciativa Nacional das Igrejas Negras (NBCI), que representa 34 mil igrejas de 15 denominações, declarou o rompimento de seus laços com a PCUSA, depois que alterou a sua constituição e aprovou o casamento homossexual.

"A NBCI e sua base de membros são posicionados na Palavra de Deus, dentro da mente de Cristo. Nós pedimos que nossos irmãos e irmãs da PCUSA se arrependam e sejam restaurado à comunhão", disse o presidente da NBCI, Reverendo Anthony Evans.

"A manipulação da PCUSA representa um pecado universal contra toda a Igreja e seus membros. Com essa ação, a PCUSA não pode mais basear seus ensinamentos em 2 mil anos de escrituras e tradição cristã, e ainda se chamar de entidade cristã no corpo de Cristo. Ela abandonou o seu direito por este único ato errado", acrescentou Evans, que representa 15,7 milhões de afro-americanos.

"O Apóstolo Paulo nos adverte sobre isso quando declarou em Gálatas 1:8 que há quem pregue outro evangelho", disse Evans. "Nenhuma igreja tem o direito de mudar a Palavra de Deus. Ao votar para redefinir o casamento, a PCUSA perde automaticamente a graça salvadora de Cristo. Há sempre a redenção no corpo de Cristo através da confissão de fé e aderência à Sagrada Escritura." 

Evans disse que a PCUSA votou, propositadamente, para mudar a Palavra de Deus, com outra interpretação do casamento entre um homem e uma mulher. "É por isso que temos de romper a comunhão com eles e pedir que toda a cristandade faça isso também."

Fonte: CPAD

Radical Cristalândia - Depoimentos

Cristolândia - Natal, RN

Roberto Marques

"O Radical para mim foi um período muito importante. Vivi muitas experiências com Deus. Experimentei do seu cuidado, zelo, provisão e fidelidade. Cresci em todas as áreas da minha vida e pude entender que vale a pena viver para o Reino, pois uma vida não tem preço." 
Wilma Galdino (Radical Cristolândia 2012/2013 - Rio de Janeiro )

"Quando fui para o Radical Cristolândia, pensei nas almas perdidas. Achava que iria somente ajudar pessoas, falar de Deus para elas. Fui colocar em prática o que passei a vida toda aprendendo. Mas fui surpreendida! Descobri que vivia um amor ao próximo superficial, de interesses e preconceitos. Tive experiências muito fortes com Deus, que vou levar para meus filhos. Através do Radical Cristolândia vivi milagres que antes apenas lia na Bíblia: o milagre da multiplicação, da transformação de vidas, o milagre do amor! Aprendi a ser serva genuína do Senhor Jesus. Não é fácil ser Radical, mas é maravilhoso! E digo “uma vez Radical, sempre Radical”!" 
Shirley Inojoza (Radical Cristolândia 2010 - São Paulo )

"O Radical Brasil foi muito importante na minha vida. Eu claramente enxergo esse projeto como se fosse uma ''gota" do Espirito Santo, no balde que Ele tem para encher nas nossas vidas. Assim, quando decidi ser um Radical, entendi que deveria esquecer meus sonhos para viver os grandes sonhos de Deus. Para aceitar esse desafio, tomei coragem e estive disposto a realmente dar passos de fé, confiando no sustento de Deus na trajetória da vida no campo Missionário (Cristolândia Pernambuco). Deus escreveu uma história muita linda na minha vida, através das experiências vividas, dos momentos de sofrimento e alegria na presença do Senhor, dos relacionamentos e aprendizado. Enfim, foram momentos que revelaram a vontade de Deus, impactanto outras pessoas que Cristo colocou aos meus cuidados. Que Deus nos abençoe ricamente e nos encoraje a dar passos de fé." 

Matheus da Silva Peçanha Lopes (Radical Cristolândia 2012/2013 - Pernambuco

No futuro, tudo vai estar conectado

Entrevista com Dov Moran, criador do pendrive
Alef

"Nunca mais irei a um lugar onde não tenha uma cópia de minha apresentação em meu bolso". Foi esse o mote que inspirou o engenheiro eletricista israelense Dov Moran a criar um dos itens mais populares do mundo da tecnologia: a memória USB Flash Drive, mais conhecida como pendrive. Ele conta que estava em uma conferência nos Estados Unidos e, durante sua vez de falar, o computador parou de funcionar. "Como minha empresa era listada na Bolsa de Valores, não podia falar besteira. Se eu dissesse algo errado, poderia ser processado. Estava desesperado", lembra. No fim, o computador voltou a funcionar e a conferência foi apresentada. "Depois que acabei, foi o exato momento em que tive a ideia de nunca mais ir a um lugar sem ter uma cópia portátil. Naquele momento, vi que tínhamos de investir em uma tecnologia que fizesse uma memória flash portátil agir como um disco rígido". A patente foi registrada em 1998. Porém, o primeiro produto só surgiu em 2000. Em 2006, vendeu a M-Systems por US$ 1.6 bilhões para a SanDisk.

Dov Moran esteve no Brasil para participar do “High Tech Nation”, evento promovido pelo escritório de advocacia Souza Cescon em São Paulo e no Rio de Janeiro que contou com a presença de especialistas brasileiros e de representantes do Technion Israel Institute of Technology. Atualmente, tem como objetivo acompanhar as mudanças de comportamento de um hábito antigo: o de assistir televisão. Neste sentido, sua nova empresa desenvolveu uma plataforma multi-telas para operadoras pagas de TV, que busca personalizar o conteúdo a partir das preferências do usuário, além de oferecer engajamento do conteúdo com redes sociais. Nesta entrevista, ele fala sobre o espírito empreendedor de seu país, da importância da cooperação entre universidade e indústria e fala com modéstia de um de seus principais inventos: "isso já ficou no passado, é uma inovação que vai desaparecer um dia e isso é OK. Nós temos que olhar para frente. Adiante".

Atualmente você apoia quinze empresas de tecnologia em Israel. O que você busca como potencial na hora de selecioná-las?

A coisa mais importante que eu busco nelas são as pessoas, o que as pessoas podem fazer e o que elas não conseguem fazer. E você consegue com o tempo distinguir entre essas duas coisas. E eu poderia falar sobre isso durante muito tempo, porque as pessoas são a coisa mais importante de uma companhia. Elas são a base fundadora de uma empresa. 

Depois você se foca na ideia. Ela é boa ou má? Pequena ou grande? Vejo se ela poderá ter alcance, se tem potencial para revolucionar e se terá competição ou não. Coisas assim. O terceiro ponto é o tamanho do seu mercado e isso não diz respeito somente ao mercado a qual uma tecnologia se destina, mas como o mercado vai evoluir, se ele vai crescer, se ele vai se extinguir. Se é um mercado onde há muita competição que fará você se dirigir a diferentes direções. É uma questão de avaliar e reavaliar, olhar todas essas questões ate você decidir se irá investir ou não. Eu comecei investindo em 5 a 6 startups e deixei esses projetos, por que muitas vezes o mercado muda. Você perde dinheiro, você ganha. Mas se você se dedica ao capital de risco, você não pode esperar que todo investimento será bom. Você perde, ganha e, claro, espera que o retorno seja muito maior do que o seu investimento inicial.

Muito do seu interesse em jovens empresas é direcionado a startups preocupadas em desenvolver inovações na área médica. A partir delas, como você enxerga o futuro da medicina?

Tudo vai estar conectado no futuro. Todos nós estaremos conectados e vamos ter muitos sensores que vão gerar esses dados para a nuvem. Vamos ter que ter essa capacidade de analisar esse enorme volume de dados que vêm das pessoas. São com eles que vamos aprender mais sobre o comportamento delas, para depois conectarmos com o nosso DNA. E isso se tornará cada vez mais personalizado. A ideia é personalizar cada vez mais a medicina e o conhecimento sobre o que deve ser testado. Estamos só no começo disso.

E por que dedicar-se exclusivamente a startups com base em Israel?

Minha política sobre investimento é que eu quero ver os fundadores e a criação deles desde a fase inicial. Poder acompanhá-los quase que diariamente. Eu quero ir ao campus, até um dos empreendedores e perguntar "Oi Joseph, como vocês está e aquele problema foi resolvido?". Você consegue ter essa relação com os fundadores e isso te dá o conhecimento necessário para continuar ou não investindo. E eu não conseguiria fazer isso em uma companhia que não se encontra em Israel.

Um dos desafios para gerar inovação é a tentativa de aproximar a academia da indústria. Um caminho que especialistas defendem como fundamental para aumentar nossos índices em inovação no Brasil. Como o senhor vê essa cooperação no seu país?

Em Israel, temos um bom sistema de cooperação entre a academia e a indústria. Eu estou envolvido em projetos com universidades. Temos uma boa conexão com a Tel Aviv University, e invisto em projetos que estão em posse de professores, além de um comitê de investidores onde eu consigo ver o que várias de nossas universidades estão fazendo. Então você tem essa relação próxima.

Israel tem sido vista como uma grande potência no mercado tecnológico. Muitas grandes companhias de tecnologia têm buscado Tel Aviv para direcionar seus negócios. O que startups e empreendedores de outros países, incluindo o Brasil, podem aprender com as empresas em Israel?

Você me coloca numa posição muito difícil, porque eu não sou o cara mais esperto que te pode dar essa resposta. Eu falo o melhor para tentar apoiar e ajudar esses empreendedores. Eu vejo que os chineses, por exemplo, são incríveis. Toda semana nós recebemos cerca de cinco delegações da China, e eles vão a Israel porque querem principalmente entender como as coisas estão sendo feitas para, por ventura, copiarem. E copiar é OK. Copiar de forma inteligente, ajustar e depois melhorar. Eu adoraria ver mais delegações do Brasil em Israel. Acredito que seria uma boa oportunidade para investidores entenderem sobre o que estamos fazendo, sobre nosso sistema de cooperação entre universidades e indústria. Em Israel, toda grande companhia, não há uma que não esteja com seus olhos lá. E estamos falando de Google, Apple, Microsoft, Motorola. E parte disso porque elas estão indo para sentir o espírito dessa inovação. E eu acredito que o que realmente nos fez o que somos é por vivermos em país de muitos desafios.

Com material do UOL e do IDG Now!/Carla Matsu

Tecnologia israelense ajuda a controlar níveis de glicose



A DreaMed Diabetes, empresa com sede em Petah Tikva (Israel), que desenvolve soluções de tratamento e gestão do diabetes, assinou um acordo de desenvolvimento e licença exclusivo em todo o mundo com a Medtronic para o desenvolvimento e a comercialização de produtos que incorporam o algoritmo Pâncreas Artificial MD-Logic da DreadMed a bombas de insulina. O software, que atua de forma totalmente automatizada, monitora continuamente os níveis de glicose e define com precisão quando e como ajustar os níveis de insulina. “Acreditamos que um pâncreas artificial totalmente automatizado proporcionará mais liberdade e saúde para muitas pessoas com diabetes ao eliminar parte da carga da gestão de glicose. A colaboração com a DreaMed Diabetes e pesquisadores em todo o mundo nos permitirá continuar avançando mais rapidamente em direção a um sistema de circuito fechado comercialmente disponível”, afirmou Alejandro Galindo, vice-presidente da Medtronic, que investiu US$ 2 milhões na DreaMed. O mercado global para os produtos voltados ao controle do diabetes envolve atualmente US$ 41 bilhões.