Lucas 16:1-13
Mt 10:16
"Sede
prudentes como as serpentes e simples como as pombas" — Mt 10:16
Introdução
- À primeira vista, o que parece esta parábola?
- a. Exaltação à malandragem?
- b. Um chamado à prudência?
I. Contexto Cultural
- A Galileia e a
Judeia do 1º século eram uma comunidade rural (ou era uma região
de comunidade rural). Nesta época, os grandes proprietários muitas
vezes moravam longe, em grandes centros urbanos, e deixavam suas
propriedades rurais nas mãos de um administrador (feitor ou mordomo).
- O
administrador tinha total autonomia jurídica para:
a. Vender a colheita (azeite
e trigo)
b. Fazer empréstimos e fechar contratos;
c. Cobrar juros (embutidos no
valor do no contrato para burlar as leis religiosas) que eram proibidos
pela lei judaica.
·
É neste contexto que o patrão descobre que o
administrador está gerindo mal seus bens e decide demiti-lo.
- Público-alvo — Discípulos e
Fariseus
- No versículo 1, o texto diz que
Jesus dirigia-se aos seus discípulos.
·
No capítulo 15, Jesus estava defendendo sua associação
com pecadores e publicanos diante dos fariseus, contando as parábolas da ovelha
perdida, da moeda perdida e do filho pródigo.
·
No capítulo 16, a conversa se dá no mesmo
ambiente, mas o foco muda para os discípulos; porém, os fariseus continuavam
por perto ouvindo tudo. (v. 14 – Os fariseus, que eram avarentos,
ouviram todas essas coisas e zombavam dele).
- A
mensagem, neste caso, é um alerta duplo:
a) Ensina os discípulos;
b) Confronta a ganância dos
líderes religiosos.
II. O Ensino da Parábola
- Os personagens da
parábola não representam figuras fixas como Deus ou o Diabo, o que
é um erro comum de interpretação.
- Eles representam dinâmicas e atitudes humanas
diante da vida e dos bens materiais.
a. O Homem Rico
- Ele
é um grande proprietário de terra que vive distante de suas propriedades e
descobre que está sendo lesado.
O que representa:
- Na maioria das
parábolas, o homem rico seria a representação de Deus, mas aqui
representa autoridades e poderes deste mundo.
- O papel do patrão
na mensagem é mostrar que as estruturas humanas de poder mudam
rapidamente. Quando ele elogia o administrador, ele personifica
a lógica do mundo:
a.
o reconhecimento da astúcia e da capacidade
de sobrevivência.
b.
Se for traçada uma analogia com Deus, ele
representa o veredicto final: a soberania que avalia como os homens administram
o que foi deixado sob os seus cuidados.
b. Administrador
- É o funcionário de
confiança que detém a procuração e o controle total dos negócios do
patrão.
- Ele é acusado de desperdiçar
os bens e não de ter roubado.
O que representa
- Ele representa a humanidade
em sua condição terrena e transitória.
- Ele nos lembra que ninguém
é dono definitivo de nada deste mundo; somos apenas administradores
temporários de recursos (tempo, vida, dinheiro, talentos) que
pertencem a outro.
O papel dele na mensagem
- Representa a sagacidade
diante da crise.
- É alguém que,
percebendo que seu futuro está ameaçado, age usando o de que dispõe para
garantir sua sobrevivência.
Cristo quer ensinar:
- Jesus usa essa
imagem como uma provocação aos cristãos para que usem sua inteligência
para garantir seu futuro eterno, usando os bens materiais para fazer o bem
e criar laços eternos.
c. Devedores — comerciantes
locais ou parceiros agrícolas
- Deviam grandes somas de mercadorias (azeite
e trigo) ao homem rico.
O que representa
- Eles representam o
próximo, a comunidade e os necessitados.
- Essas
dívidas eram fardos pesadíssimos para as famílias locais, muitas
vezes agravadas pela cobrança de juros abusivos.
O papel deles na mensagem:
- Eles entram na
história para mostrar como o dinheiro deve ser usado de forma
inteligente.
- Ao perdoar parte
da dívida, o administrador compra a gratidão e a amizade deles.
a.
Para Jesus, os devedores representam as pessoas
que devemos abençoar e acolher aqui na Terra por meio dos nossos recursos (físicos
ou espirituais).
b.
O dinheiro deve ser transformado em
relacionamentos, generosidade e alívio para o sofrimento alheio.
2.1 O Homem Rico e seu Administrador
"Então,
chamando-o, lhe disse: 'Que é isto que ouço a seu respeito? Preste contas da
sua administração, porque você não pode mais ser o meu administrador.'"
- No verso 2, temos um quadro interessante:
a. O
administrador é denunciado (o diabo é nosso acusador – Hebreus 12:2);
b. Ele não
apresenta defesa diante da acusação (v. 3);
c. A cobrança
do seu senhor e consequente demissão.
- A cobrança é
inerente a qualquer senhor; ela faz parte da vida material (trabalho,
família) e espiritual (Deus).
- Uma das ligações
com o mundo espiritual é exatamente esta: "Me dê conta do que dispus
para tu administrares" (dons, tempo, influência e posição, espaço
físico).
- O resultado de uma
vida dupla é a reprovação.
Observações:
- O administrador
infiel arranja uma forma de lidar com as consequências dos seus atos;
porém, não se arrepende, mantendo o devido afastamento do seu
senhor.
- Não se dispõe a
pagar sua dívida, além de dar um segundo prejuízo ao seu
senhor quando perdoa parte da dívida dos credores do seu senhor.
- Isso lembra a
solução para o fundo de pensão do RJ. Estão planejando que o horário
2.2. A Situação Triste do Administrador
"O administrador, então, se
pôs a pensar: 'Que farei, agora que estou sendo demitido pelo meu patrão?
Trabalhar na terra, não posso. De mendigar, tenho vergonha. Já sei o que vou
fazer para que, quando for demitido, as pessoas me recebam em suas casas".
Os irmãos notaram um detalhe
nesta conversa?
- Interessante:
ele não planejou nada quando estava na responsabilidade dos bens do seu
senhor. Agora aparece com um plano (um ótimo plano para a situação que
vivia) diante da sua crise pessoal.
- Ele não se dispôs
a negociar com seu patrão.
- Tinha o ego
inflamado:
a) Negação do
trabalho braçal;
b) Negação de
pedir esmola.
- Ele não possuía nenhuma reserva para ampará-lo numa
crise.
- Estamos jogando fora toda e qualquer possibilidade
de amparo ao ser descortês com os irmãos, autossuficiente.
- Ele construiu a ladeira que o tirou de uma posição
de poder (administrador) para a miséria social (mendicância).
2.3. Ensino Bíblico Contra a Prática de Juros
- A proibição da cobrança de juros estava na lei
mosaica – Êx 22:25; Lv 25:36; Dt 23:19.
"Se
emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com
ele como um usurário; não lhe imporás usura." — Êx 22:25
- Davi trata esta orientação com muita seriedade – Sl
15:1, 5.
"¹
Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Quem morará no teu santo monte? [...]
⁵ Aquele que não empresta com usura, nem recebe subornos contra o inocente;
quem faz isto nunca será abalado." — Sl 15:1, 5
- É provável que os devedores estivessem pagando
juros embutidos, o que era um crime.
2.4. O Jeitinho do Administrador
- Como naturalmente ocorria a cobrança de juros entre
os judeus com o objetivo de descumprir a lei?
a. O
administrador recebia os recursos devido ao seu senhor.
b. Retirava a
parte do patrão e ficava com a resultante da cobrança dos juros.
- A estratégia usada foi negociar em particular
com cada devedor:
a. O
primeiro devia 100 batos de azeite (um bato correspondia a 30 – 39 litros — um
ano de trabalho = R$ 70 mil atualmente). Sua dívida foi reduzida pela metade.
b. O
segundo devia cem coros de trigo (um coro entre 300 e 420 litros — meio ano de
trabalho = R$ 20 a 40 mil). Era um valor considerável, visto que era capaz de
garantir o pão de uma comunidade inteira por um ano; contudo, pagou 80.
Obs.: É aceito pelos
estudiosos que o mau administrador retirou os juros embutidos, ou seja,
seu ganho pessoal.
- Com essa ação, o
administrador comprou seus futuros amigos.
- Ele teria pessoas
que estariam dispostas a socorrê-lo quando desempregado.
Verso 8
"Aquele
senhor elogiou o administrador injusto por ter procedido com astúcia; pois os
filhos deste mundo são mais astutos para com sua geração do que os filhos da
luz." — Lucas 16:8
- Com as notas
promissórias originais destruídas, o senhor nada podia fazer para
recuperar o dinheiro perdido.
- Muito menos o valor
original, com ou sem consentimento, embutia juros que ele estava
proibido por lei de cobrar dos seus patrícios. "Infiel a Deus,
infiel ao próximo".
- O único consolo
é que ele poderia adquirir a reputação de credor generoso.
- O administrador
infiel não informou aos devedores que era ele que agia por interesse
próprio e deixava tudo na conta do patrão.
- O administrador
infiel é elogiado por sua astúcia e não por sua ética.
III. A Aplicação da Parábola (vs. 9-10)
- Deus nunca disse
que o dinheiro era mal, mas nos advertiu sobre o perigo do amor ao
dinheiro. Ele aconselha a usá-lo bem (v. 9).
- Advertência de
Paulo a Timóteo:
"⁹ Mas
os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas
concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína.
¹⁰ Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda espécie de males; e nessa cobiça
alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores."
— 1 Tm 6:9-10
- Quantas vezes a injustiça
não está aliada no uso das riquezas materiais?
- O dinheiro pode ser
usado para a glória de Deus; contudo, pode também corromper o nosso
coração (querer sempre mais).
- Nesta parábola somos ensinados a:
a. Ter
responsabilidade social.
b. Ser bons mordomos
(tempo e oportunidade, dinheiro e cuidado com o próximo).
c. Administrar
os recursos e bens da melhor maneira possível para glorificar a Deus.
d. Saber que
tudo pertence ao Senhor.
e. Que nossa
fidelidade deve estar presente nas pequenas coisas e que só alcançaremos
coisas maiores a partir delas (v. 10).
f. Não podemos
servir a dois senhores.
Obs.: No verso 9, temos:
"Eu vos
digo ainda: fazei amigos por meio das riquezas da injustiça, para que, quando
estas vos faltarem, eles vos recebam nos tabernáculos eternos."
- Dificilmente qualquer coisa que temos ou venhamos a
ter foge da classificação de "riqueza da injustiça",
visto que tudo está manchado pelo pecado.
- Os discípulos deveriam usar o dinheiro com sabedoria
para fazer amigos:
a.
Ajudando os necessitados e acumulando
tesouros no céu;
b.
Afinal, depois da morte os bens materiais não
servem para mais nada.
IV. Desafio Final: Ninguém pode servir a dois
senhores (16:13)
- Devemos amar e
servir a Deus (Mt 6:24).
- O dinheiro deve
ser usado na obra do Reino.
- Nossos olhos devem
estar fixos nos tesouros do céu.
- Deus exige
prioridade em nossa vida.
- Por fim, a
generosidade é uma prova de colocar nosso coração em Deus e não nas
riquezas. E, neste caso, um insulto a Satanás e ao materialismo que
domina este mundo (Pv 3:27; At 2:44-47).
Deus nos abençoe.
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