quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A cura do servo do centurião

Lucas 7.1-10
1.       Introdução

A cura do servo de um centurião se passa na cidade de Cafarnaum e se encontra registrada no livro de Lucas 7.1-10 e Mateus 8.5-13, sendo, portanto um relato bíblico comum apenas a esses dois evangelhos.
Segundo B. H. Streeter (The fourm gospels) Lucas e Mateus se utilizam de quatro fontes históricas para compor seus evangelhos (O livro de Marcos; fonte M [material só encontrado em Mateus]; Q [material encontrado em Mateus e Lucas] e L [material só encontrado em Lucas].) das quais encontramos a presente história.

Esse relato é surpreendente, visto que faz parte de uns poucos que aparecem nos evangelhos onde temos um gentio intercedendo a Jesus Cristo (a mulher Cananéia - Mt 15.22-28) e mais especialmente, intercedendo por alguém sem vínculo familiar, nesse caso um servo [escravo].

2.       Contexto histórico

O cenário onde ocorre esse fato é a cidade de Cafarnaum.

Dados geoeconômicos:
·         Ficava a noroeste do mar da Galiléia, na região de Zebulom e Naftali [Mt 4.13-16; Lc 4.31; Jo 6.17-24]
·         Era um centro de cobrança de impostos [Mc 2.1,14], posto militar [Mt 8.5-13; Lc 7. 1-10].
Relação de Jesus com a cidade:
·         Foi lá que Jesus desenvolveu a parte inicial do seu ministério. Sua identidade com a cidade era tanta que muitos chamava Cafarnaum de sua cidade [Mt 9.1]. Vejamos alguns motivos:
Em Cafarnaum fez inúmeros milagres:
·         O servo do centurião alvo da nossa meditação.
·         A cura da sogra de Pedro – Mt 8.14-17; Mc 1.29-31.
·         Expulsou demônios – Mc 1.21-28; Lc 4.31-37.
·         Cura do paralítico –Mc 2.1-18, do filho do régulo – Jo 4.46-54 e outros enfermos – Mt 8.16,17; Mc 1.32-34; Lc 4. 23,40,41.
Chamou ao ministério alguns dos seus discípulos:
·         Levi e Mateus foram chamados ao apostolado nesta cidade – Mt 9.913; Mc 11. 14-17; Lc 5. 27-32; Mt 17.24.
Ensinou ao povo e orientou seus discípulos:
·         O discurso registrado em Jo 6.24-71 foi feito na sinagoga de Cafarnaum ou em outro lugar da cidade Mc 9. 33-50.

Apesar de Jesus ter se esmerado em ensinar e operar milagres os habitantes de Cafarnaum não se converteram, daí Jesus ter profetizado a ruína desta cidade [Mt 11.23,24; Lc 10.15].  É uma pena, mas muitos só buscam a Deus por conveniência. Contudo, Deus não se deixa enganar.

“E tu, Cafarnaum, porventura serás elevada até o céu? até o hades descerás; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Contudo, eu vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para ti.” [Mt 11.23,24]

3.       Lucas 7.1-10

No momento em que o centurião chega a Cristo já havia se passado um século de dominação romana sobre a Palestina. Portanto, esse encontro também tem essa característica: o dominador se curva diante do dominado (Jesus homem – representação do povo judeu). Só Deus faz coisas maravilhosas como essa.
“Disse o Senhor: Na verdade, eu te fortalecerei para o bem e farei que o inimigo te dirija suplicas no tempo da calamidade e no tempo da aflição.” [Jeremias 15. 11]
No livro de Mateus e Lucas temos a informação que o centurião veio pessoalmente [Mateus] ou por intermédio de terceiros [Lucas] a presença de Jesus.

“Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, chegou-se a ele um centurião que lhe rogava, dizendo: Senhor, o meu criado jaz em casa paralítico, e horrivelmente atormentado.” [Mateus 8.5-6]
“Quando acabou de proferir todas estas palavras aos ouvidos do povo, entrou em Cafarnaum. E um servo de certo centurião, de quem era muito estimado, estava doente, quase à morte. O centurião, pois, ouvindo falar de Jesus, enviou-lhes uns anciãos dos judeus, a pedir-lhe que viesse curar o seu servo. E chegando eles junto de Jesus, rogavam-lhe com instância, dizendo: É digno de que lhe concedas isto;” [Lc 7. 1-4]

a.      Centurião: caráter cristão - intimidade com Deus.
A primeira lição que podemos tirar deste texto é que esse gentio semelhante ao centurião Cornélio [atos 10] era uma pessoa que tinha intimidade com Deus. O argumento usado por seus intercessores em Lucas 7. 4-5, bem como, sua abordagem a Cristo [Mateus 8.5] deixa claro essa verdade.

O centurião lhes “rogava”. Essa expressão não está solta nesse texto. Ela é carregada de sentido. Os soldados romanos eram considerados brutais e desprezíveis pela arrogância que lhes era comum, imagine um oficial. Esse homem era diferente. Ele honra a Cristo com sua humildade. Ele tem o sentido exato da soberania de Deus e respeita-o.
Aqui cabem algumas perguntas:

·         Como estamos tratando o nosso Pai [Deus]? Como chegamos a Ele para derramar nossos corações? Nessas horas agimos como servo ou senhor? Determinamos ou esperamos em sua misericórdia?

 Deus não tem obrigação de atender nossas petições, Ele não precisa de nós para ser o que é, mas unicamente por seu imenso amor, graça e misericórdia e que age em nosso favor. Ao contrário de muitos que só seguem Jesus por conveniência, o centurião possuía uma fé verdadeira no filho do homem, por isso não perdeu tempo e ouvindo que Cristo passava por sua cidade logo tratou de procurá-lo.

b.      Um Deus que supre nossas necessidades.
A segunda verdade que vejo nesse texto é que havia uma necessidade. Ela é o grande motor de toda essa história. Provavelmente sem a mesma o centurião não teria buscado a Cristo, embora essa circunstância não anulasse sua fé, nem o desmerecesse diante do Pai, mas estaríamos privados desse lindo testemunho bíblico e a comunidade judaica [do seu tempo] do seu impacto espiritual.

A situação aqui é usada por Deus para exaltar o seu nome. Muitas vezes passamos por privações, aflições e dificuldades e não lembramos que as mesmas podem e são usadas por Deus para seus propósitos. Na verdade só enxergamos o problema e mergulhamos num oceano de angustia.
Nesse sentido o Salmo 34.17 vem nos socorrer: “Muitas são as aflições do justo, mas o Senhor de todas o livra”.

·         Ninguém está livre de aflições.
·         Mas, temos um Deus. Aleluia!
·         Ele nos livra, ou seja, não sucumbimos em meio aos problemas, mas passamos. Glória a Deus!

Quando nos detemos em saber o que se passava com o servo [escravo] do centurião as informações não eram nada animadoras:

·         Estava de cama – Mt 8.6.
·         O seu mal o deixava paralítico - Mt 8.6.
·         Sofria horrivelmente - Mt 8.6.
·         Estava quase a morte – Lucas 7. 3.

Que doença era essa? Não sabemos, mas pela atitude do centurião [Mateus] ou dos seus intercessores [Lucas], pela urgência do pedido de socorro dar para perceber que o quadro era devastador. A conclusão que chegamos é que não existia solução para esse problema na medicina da época e é pouco provável que existisse hoje.

Jesus não faz pouco caso da situação. Ali havia várias pessoas que precisavam de ajuda: o centurião, o servo e a comunidade que vivenciava o problema. Para cada elemento desta trama havia um sentido para o que Jesus já determinara fazer.

“Eu irei curá-lo” - Mt 8.7
“Então, Jesus foi com eles” - Lucas 7.6

Deus sempre está atento as necessidades do seu povo. O centurião e seu servo [escravo] não eram judeus, mas pela fé que nutriam em Cristo eram alvos de sua graça, afinal a salvação também era para os gentios [Is 2.2-4; Am 9.12; Zc 9.7], apesar do preconceito e escândalo que essa verdade causava a nação escolhida [At 10.28;11.3], ele simplesmente foi a casa do centurião.

c.       A cura: expressão da soberania de Deus
Por fim: Quem era alvo de tanta atenção? Diz a bíblia que era um servo [grego: escravo], ou seja, alguém que certamente não chamava muita atenção, uma mercadoria, alguém sem nome, sem identidade, sem valor. Em algumas cidades gregas havia lugares para descarte de escravos doentes [abatedouro]. Nesses lugares o escravo encontrava um fim rápido e seu dono livrava-se de um problema.

A situação descrita nos textos de Mateus e Lucas nos fala de outra realidade, não de descarte, mas de acolhimento, pois esta é a proposta do Senhor para a humanidade, visto que Deus não faz acepção de pessoas [Deu 10.17; At 10.34].

Temos valor para o Pai celestial. Aquele escravo, refugo humano fazia uma grande diferença na vida do seu Senhor e conseqüentemente para Cristo. Semelhante a ele, todos éramos escravos do pecado, mas Cristo nos libertou na cruz. Em 1Jo 4.19, o apostolo afirma que Deus nos amou primeiro, mesmo quando éramos ainda pecadores. Daí a prontidão de Cristo em resolver a situação do servo do centurião.
Ao se aproximar da casa onde estava o enfermo Jesus é alcançado pelos amigos do centurião (Lucas) ou pelo próprio centurião (Mateus) que expressa(am) uma verdadeira declaração de fé.

“E foi Jesus com eles; mas, quando já estava perto da casa, enviou-lhe o centurião uns amigos, dizendo-lhe: Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres debaixo do meu telhado. E por isso nem ainda me julguei digno de ir ter contigo; dize, porém, uma palavra, e o meu criado sarará. Porque também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados sob o meu poder, e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz. E, ouvindo isto Jesus, maravilhou-se dele, e voltando-se, disse à multidão que o seguia: Digo-vos que nem ainda em Israel tenho achado tanta fé.” [Lc 7.6-9]

Aqui fica claro o principio de autoridade, bem como a humildade desse servo de Deus. Não era judeu, mas sua fé foi agradável a Deus. O desfecho desta história é a cura do seu servo. Nesse momento fico pensando que alegria deve ter invadido aquela casa. O centurião não deixou de ser soldado, o servo de ser servo, mas estavam transformados espiritualmente. Aquela experiência deixou marcas eternas e nos fala até hoje.

Concluindo, posso sem receio afirmar:
·         Aquelas vidas receberam as marcas de Cristo.
·         Toda comunidade que vivia ao entorno daquela casa os tinha como testemunho vivo da misericórdia de Deus.
·         Por fim, só Deus pode mudar uma situação tão adversa e nos fazer repousar em um lugar espaçoso.

Que Deus possa abençoar a todos. Amém!

Um comentário:

Comente o texto e ajude-nos a aperfeiçoá-los.