quarta-feira, 29 de junho de 2011

Lacunas educacionais limitam futuro do Brasil



10 de setembro de 2010  16h51



educação. Foto: Getty Images
Na última década, os estudantes do Brasil ficaram entre os piores do mundo ao realizar provas internacionais de conhecimentos básicos
Foto: Getty Images

ALEXEI BARRIONUEVO
Quando Luiz Inacio Lula da Silva assumiu a presidência do Brasil, no início de 2003, ele emocionadamente declarou que, ao se tornar presidente, havia finalmente obtido seu "primeiro diploma". Um dos presidentes menos instruídos do país - Lula completou apenas a quarta série ginasial - logo se tornou um dos mais amados, retirando milhões da extrema pobreza, estabilizando a economia do Brasil e obtendo um status quase lendário tanto localmente quanto no estrangeiro.
Mas embora Lula tenha sobrepujado seu início humilde, seu país segue lutando. Talvez mais do que qualquer outro desafio no Brasil de hoje, a educação é um obstáculo em seus esforços para acelerar a economia e se estabelecer como uma das nações mais poderosas do mundo, expondo um grande ponto fraco em sua armadura.
"Infelizmente, numa era de concorrência global, o estado atual da educação no Brasil significa que o país provavelmente ficará atrás de outras economias emergentes na busca por novos investimentos e oportunidades de crescimento econômico", concluiu o Banco Mundial num relatório de 2008.
Ao longo da última década, os estudantes do Brasil ficaram entre os piores do mundo ao realizar provas internacionais de conhecimentos básicos como leitura, matemática e ciências, acompanhando outras nações da América Latina como Chile, Uruguai e México.
Os estudantes brasileiros de 15 anos ficaram na 49ª posição, entre 56 países, no exame de leitura do Programa para Avaliação Internacional de Estudantes, com mais da metade obtendo a menor nota em nível de leitura em 2006, o ano disponível mais recente. Em matemática e ciências, eles se saíram ainda pior.
"Nós deveríamos nos envergonhar", afirmou Ilona Becskehazy, diretora executiva da Fundação Lemann, uma organização de São Paulo dedicada a aprimorar a educação brasileira. "Isso significa que as crianças de 15 anos do Brasil dominam mais ou menos os mesmos conhecimentos de crianças de 9 ou 10 anos em países como Dinamarca ou Finlândia".
A tarefa enfrentada pela nação - e um legado de Lula - é assustadora. Aqui nesta pobre cidade do nordeste, onde Lula viveu seus sete primeiros anos, cerca de 30% da população ainda é de analfabetos, um número três vezes maior que a média nacional.
Quando Lula era um menino aqui, seu pai costumava bater em alguns de seus irmãos mais velhos quando eles faltavam ao trabalho para ir à escola, disse Denise Parana, autora de uma biografia do presidente.
Hoje, professores dizem que muitos pais mandam seus filhos à escola somente porque isso é uma exigência do programa de subsídio Bolsa Família, que Lula expandiu enormemente sob seu governo e que proporciona cerca de 200 reais por mês a cada família.
Porém, mesmo com o incentivo adicional, os níveis de leitura variam tanto por aqui que, numa classe da oitava série, alunos de 13 a 17 anos leem o mesmo texto em voz alta.
"Muitos pais dizem, 'Por que eles devem estudar se não há oportunidades?'", disse Ana Carla Pereira, professora de outra escola rural local. Como presidente, as políticas educacionais de Lula tiveram um início devagar; ele dispensou dois ministros da educação até se resolver por um, em 2005. Mesmo assim, o programa educacional do governo não começou até 2007 - quatro anos depois que Lula assumiu a presidência.
Agora em seu último ano no cargo e falando sobre seu lugar na história, Lula tem uma "obsessão" pelo assunto, afirmou Fernando Haddad, seu ministro da educação, o que se via com facilidade quando ele retornou recentemente para a cidade de sua infância.
"Quero que todas as crianças estudem mais do que eu pude, muito mais", disse ele enquanto anunciava um programa que daria laptops aos alunos. "E que todos eles obtenham um diploma universitário, que todos tenham um diploma vocacional".
A urgência não poderia ser mais clara. O Brasil já se estabeleceu como uma força global, comandando uma explosão no consumo doméstico e de commodities para se tornar uma das maiores economias do mundo. Com enormes novas descobertas de petróleo e um papel cada vez mais importante no fornecimento de alimentos e materiais brutos à China, o país está pronto para crescer ainda mais.
Mas suas deficiências educacionais estão deixando muitos brasileiros de fora. Dos 25 milhões de trabalhadores disponíveis para se juntar à força de trabalho neste ano, mais de 22% não eram considerados qualificados para atingir as exigências do mercado de trabalho, segundo um relatório do governo de março.
"Em certos estados e cidades, temos problemas para contratar, mesmo tendo empregos", disse Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, a agência governamental que produziu o relatório de março. Estimativas anteriores mostravam que dezenas de milhares de empregos não foram preenchidas pela falta de profissionais qualificados.
A menos que essa lacuna seja preenchida rapidamente, o Brasil pode perder sua "janela demográfica" nas duas próximas décadas, período onde "a população economicamente ativa está em seu pico", afirmou o banco Mundial.
Haddad, o ministro da educação, disse que mesmo com desempenho fraco em comparação a outros países, o Brasil estava melhorando com mais velocidade que muitos concorrentes. "O Brasil está tentando recuperar o tempo perdido", afirmou Haddad. "Enquanto outros países investiam em educação, nós gastávamos nosso tempo dizendo que a educação não era tão importante".
O governo obteve alguns notáveis sucessos, incluindo um programa que criou cerca de 700 mil bolsas de estudo para alunos de baixa renda em escolas particulares, um esforço aplaudido por especialistas educacionais.
Com Lula, o governo também abriu mais de 180 escolas vocacionais - frente às 140 abertas durante os 93 anos anteriores - e aplicou um novo exame para avaliar o desempenho dos alunos.
As matrículas em escolas têm aumentado continuamente, uma tendência que começou na década de 1990 com o presidente anterior, Fernando Henrique Cardoso - e as notas de graduação para o ginásio aumentaram, sob o governo Lula, de 13% dos pontos a 47%, segundo Haddad.
Esses sucessos, porém, são muito pouco perto do impulso de mudança que alguns especialistas em educação esperavam ver de Lula, considerando seu histórico. Quase nada foi feito para aprimorar a qualidade da educação e os métodos de ensino, e o presidente não usou seu belo púlpito para fazer com que a nação exigisse mais de seus professores e escolas, dizem eles.
"Ele possui essa aura, esse poder, ele influencia muito", disse Becskehazy, da Fundação Lemann. "Ele não usou a oportunidade para inspirar as pessoas".
Tampouco ajudou, acrescentam os críticos, que Lula tenha algumas vezes usado sua própria falta de instrução como parte de um discurso populista para atacar as ¿elites¿ bem instruídas que sempre governaram o Brasil, quase se vangloriando por ter chegado tão longe sem uma educação formal.
"Em seus discursos, ele tendia a jogar o povo menos instruído contra a elite brasileira", afirmou Pochmann.
Encontrar profissionais com os conhecimentos básicos até mesmo para empregos de trabalho manual está se tornando um desafio, e muitas empresas não estão esperando que o sistema educacional brasileiro entre nos eixos. A Odebrecht, gigante brasileira da construção, é uma das muitas empresas que treina um grupo potencial de trabalho por alguns meses em leitura e matemática básicas.
"A educação é a grande desvantagem para o Brasil em comparação com a China, Índia e Rússia", disse Paulo Henrique Quaresma, diretor de recursos humanos da Odebrecht, citando os outros três países que os investidores globais veem como as maiores economias emergentes do mundo. Em Caetés, não é difícil enxergar por que.
"A primeira escola a que meu pai me apresentou foi o cabo de uma enxada", disse José Bezerra da Silva, que, como sua esposa, é analfabeto e não consegue ajudar seus filhos com o dever de casa. O casal e seus sete filhos dividem uma casa de dois cômodos; a estrutura de madeira do sofá aparece por baixo de uma almofada esfarrapada. "Lula mudou muitas coisas".
O índice de repetência de primeira série no Brasil é de 28%, entre os mais altos do mundo, segundo o Banco Mundial - embora o governo afirme que o número vem diminuindo. Escolas do ensino secundário possuem muitos alunos mais velhos, graças à alta taxa de fracassos dos alunos nas séries mais baixas. Muitos dos frustrados simplesmente desistem.
"O Brasil continuará crescendo abaixo de seu potencial", disse Samuel Pessoa, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas. "Se tivéssemos um sistema educacional melhor, as coisas seriam diferentes".
The New York Times
The New York Times

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